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A gente

A gente vive com um sorriso no rosto pra apagar o desgosto que é viver conosco porque a vida é fosca o sorriso é máscara nada na mosca tudo na bhaskara a exatidão do papelzinho não chega perto desta vívida caderneta porque o foco da vida é a roleta e nossas mãos só querem a punheta.

Sorriso de Deusa

Te deixo a barba pra ver um sorriso. E sorriso eu vi E sorriso eu quero continuar vendo Não quero ir embora Tal Sorriso Fico... Ficando com ele Dormindo com ele Acordando com ele Sonhando com ele Enamorado com ele. Por favor, sorriso, não vá embora Eu fico com você um tempo a mais Só não deixe de existir Porque você é lindo E você é linda E foda-se as normas cultas E a minha norma culta E foda-se o senso cultural E a admiração da sociedade E viva a comida E o sorriso E o amor E o foda-se Ai, querida, Viva a barba Viva a paixão Viva você Viva a gente.

Ignorância

          Dois tipos de ignorantes:           O que acha que não é ignorante e é feliz.           O que vê que é, se dá conta de que o mundo é grande demais, se sente mal que, em meio a tantos sábios, ele está condenado à uma felicidade confusa, ao desgosto e à insuficiência de tentar e nunca alcançar; nunca ser mais do que é.           E o pior é que, para o último, a admiração ao mundo e aos sábios só serve para evidenciar uma frase:           "Tão bom vivo...           quanto morto."           

Feliz

          Acho que o mundo fica mais clarinho quando a gente descobre que até mesmo pessoas como nós - formas peculiares aos olhares do mundo conforme nossas percepções frente ao espelho -; até nós podemos ficar em silêncio, sorrir e dizer algo do tipo, bem devagarinho:           - Eu sou feliz. Confuso, mas feliz.

Cama dos Erotes

          Fiquemos desprotegidos. A nudez salienta nossas intenções. Toquemos um ao outro em silêncio; admirados e perplexos; mudos com olhos beirando às águas. Somos aquilo e sempre seremos. Somos a figura da reciprocidade, do prazer, do amor e da paixão. Não deixemos que o medo nos abale, o carinho vem quando o aquele se põe. Vem o carinho e o toque.           Quero começar, só eu: sem atrito, sem o mal; só o pesar escorregado da minha mão. Sentir o ponto de encontro das pernas e os pontos de separo do tórax. Que tom eles têm... São descritíveis, mas não ouso falar denotativamente. São uma amostra dos sonhos mais confortantes, mais gostosos. São os encontros dos beijos e das vozes, dos sorrisos e dos apertos. São as nossas noites e nossas manhãs em corpos que, tão juntos, se misturam fazendo, da cama, areia. Nossas mentes se entrelaçam, juntas como os dentes do sorriso que me encanta. Encanto. O sorriso. Sinônimos para mim. Deste se d...

Rezo

          Rezo para que o sorriso que meu amor me causa seja maior para minha origem que o preconceito desta.

Fim

          Se isto acabar, espero que todos aqueles cabelos em minha cama também se retirem. Assim como os do chuveiro, os de atrás da mesa, os que estão na cozinha e os do pente.           Mentira. Estes, vou guardar. O tempo que eu quiser.

Choro

Às vezes parece que lágrimas são mais bem vindas que beijos. Ou que sorrisos. Ou que abraços. Mas não há nada melhor que beijos chorados, abraçados e sorridentes.

Não sei

Inexorável Imensurável Imcumprível Ilegível Inefável Impossível Invisível Inquestionável Incrível E, por isso, E, ainda sim, Não sei nada e Tão sei tudo Que quero mais desse doce E quero menos desta vida.

Foto na carteira

          Ter foto de alguém na carteira tem dois lados, um ruim e um bom.           O ruim é que, se você teve de colocar aquela foto lá, o final foi considerado até previamente. Assim a dor já se mantém antes de uma - por favor não - despedida. O medo acompanha aquela foto, até o momento em que o medo vira vapor e se condensa nas suas próprias lágrimas sobre ela.           O bom é que, se alguém está em sua carteira, você já amou. E com a foto dela no seu bolso, o amor dela fica no seu peito.           Ruim e bom.           Mas vale tanto à pena que eu compraria mais mil carteiras apenas para ter mil e um amores só dela neste coração.

Shh...

          Tenho tanto a falar com meus lábios. Sei fazer cada letra tocar um coração diferente, sei fazer pessoas chorarem com o que digo, sei estimular prazeres com as palavras e sei usá-las para causar sorrisos sinceros.            Mas só parece que não sei calar a boca.

Estou vendo

          Vejo o futuro e o amor. O sorriso e a alegria. As mãos e o sexo. Eu e você.           Estou vendo que é perfeito. É uma pena que é perfeito. Por que tão perfeito!?           Seria tão mais fácil se isso só estivesse perfeito. E se não fosse.           Mas é.           E como é perfeito.        

Gota

          Eu sou a gota que escorre do seu olho, que bate no seu lençol e que lá fica presa por entre quartas-feiras. Sou a mistura da água em seu lençol dentro da máquina de lavar. Suja, usada, disforme, inquieta. Para o esgoto. Sou a corrente de podridão que vasta no subsolo, até a Baía de Guanabara. Sou o vento que paira por sobre as águas pretas e imundas do mar fechado e que carrega os pássaros. Também eles são o que sou. E tomam de beber de minha água suja e de voar em meus ventos mórbidos e de comer em meu ventre morto. Sou as fezes do pássaro, decadentes sobre os pés de um homem que corre sobre o calçadão. Sou esse homem; e, sendo ele, estou sentado, de novo, em sua cama. Sou a voz do mal. Sou a gota de saliva que saltita da ponta de minha língua até sua face nas minhas horas de grosseria. Sou essa gota.          Sou uma gota, uma saliva arrependida de ter saltado em prol dos meus berros e calúnias, agora destinada a fundir cusp...

Imperativo

Meus lábios falam "eu te amo" Teus ouvidos ouvem "Dá-me prazer Corta teus cabelos Limpa teu corpo bobo Suja minha mente suja Abra-te para mim E me chama como teu rei" Agora acorda, deixa de bobagem e vê que a única verdade é que tu já és rainha de ti e que não precisas obedecer a ninguém Vê que não precisas de me amar por pressão vê que não precisas de nada entende que o que te dou não é pelo meu imperativo É pelo teu sorriso.

À noite

          É lindo que à noite, com o sono indo e vindo, com a música baixa e com a incerteza da certeza de acordar na manhã seguinte; é lindo que mesmo com isso, o que me mantém consciente é a ideia de continuar sorrindo com esse calor da ansiedade do futuro. Acompanhado de medos e dúvidas, cheio de chances de erro, ele vem; segundo por segundo:           Tic tac, tic tac.            A noite passa.           E eu, lembrando de todas as outras noites que se mantêm ligadas a esta pela falta de sono, e imaginando todas as noites que estão por vir e se juntarão ao imaginário das minhas madrugadas esperançosas; eu, simplesmente, sorrio.

Chorei hoje

Chorei de tarde: minha mãe me deu um cartão e disse 'saca 50 reais' e eu fui correndo porque queria jogar bola depois cheguei ao banco entrei na fila estava enorme e impaciente grávidas idosos ricos pobres todos impacientes correndo para sacar e depositar e ficar mais ricos e mais pobres minha vez chegou e me dei conta que ninguém me ensinou a sacar ninguém me ensinou a fazer parte da fila ou a viver fui vítima da impaciência de todos: chorei.

Maravilhoso

Quem diria que minha cura resumiria-se a aceitar meu orgulho, a refutar minha cabeça baixa, e ser, tão simplesmente, maravilhoso?

Desprotegido

Nú no carinho Nú no amor Nú no medo Nú no quarto Nú no momento Nú no sol Nú no nada Sempre Nú Sempre no Sempre Nuno.

Citação

          Quem decora citação é como a cola de uma prova sem gabarito. Sana meus medos e clareia meus escuros. Apaixonante.

Desapego

          Tanto já estou imerso nas engrenagens de minha jovem mente que meu desinteresse manifesta-se em torno de si próprio, em torno do desapego, da preguiça. Não mais me apetece viver à deriva.           Quero começar a viver direito.

Caminho da Pedra Preta.

          Enquanto o sol ferve e seu calor me convoca às minhas origens, eu não tenho a coragem, ou a vontade, de vê-lo e assumir meu posto como seu filho.

Como agradar um amor

Fale que lhe dará rosas Ou que lhe dará carinho Lave as mãos oleosas E pegue no queixo limpinho Fale que quer um abraço E o quer muito apertado A fim de gozar do melaço Que é um rosto suado Mas não importa o que falar O pensamento insano será Se, por ventura, não o validar: Limpe a boca com um pano E diga, antes de se calar: "Lembra-te que eu te amo."

Corpos

          Numa manhã de um sábado, eu e meu amor dormíamos calorosamente em minha cama.           Um raio de sol forte entrou pelas cortinas e nós dois, repentinamente, trocamos de consciência. Nada pude fazer, pois o corpo de minha linda ainda repousava, e, por isso, eu estava em sonhos. Mas meu corpo já estava despertado e, com ele, a mente dela.           Ela me viu pelos meus olhos. Eu pude ouvir seus pensamentos, mesmo não estando em minha mente; e pude sentir, naquela hora, tudo o que ela sentia.           Estava surpresa por não entender por que seus cabelos pareciam mais loiros. Estava surpresa por ver que suas as mãos brilhavam de tão brancas. Já tinha visto tantas vezes o próprio corpo e agora, tolamente, o coração de seu receptáculo estava acelerado.           Batia muito. Alto e fortemente. Os ouvidos de meu corpo já se acostumaram àquela batid...

Fome

Fome é como o abraço de um amor que, mesmo depois de tão almejado, quando alcançado, já vira rotina. E ela, assim como ele, é ignorada até que a geladeira esteja, mais uma vez, vazia.

Um da página 7

É muito fofo o jeito que, mesmo sem nada aqui fazer sentido, eu posso simplesmente acreditar no seu amor, e estes versos de escadinha, de repente, viram arte.

Dor

O significado não existe ainda, porque estou feliz. Feliz hei de continuar, até que o amor se separe. E feliz sempre tentarei ser, até que amor e dor deixem de rimar.

Anorexia política

          A hiena mata uma zebra macho.           A, sozinha e extenuada, zebra fêmea não mais consegue viver.           Os filhotes nem sequer saem do útero materno.           O mundo animal se exalta.           Capins gritam de alegria e proliferação.           Leões gritam a fome e a morte.           A hiena não tem mais ossos senão os dela mesma.           A zebra, morta, não pôde, nunca poderia, fazer nada contra o egoísmo da hiena.           E, assim, vivemos em um mundo de capins e húmus.

O preço do silêncio

          A menina comia um bolo na casa de sua avó. Era natal e a família estava radiante em termos de moda; como era um dia quente do litoral nordestino, as roupas não eram tão... evidentes. Os pais e tios, claramente, preparados como turistas, visto que apenas a avó lá morava. Biquinis, bermudas e sungas para os pequenos; camisas claras e chapéus redondos aos já bêbados familiares. Ainda era cedo - onze da manhã - e, por isso, a preocupação para com a ceia não se fazia necessária. O que importava era a praia.           Garota de São Paulo, crescida em meio aos prédios ofuscantes e sobre o asfalto 'negropretosujoduro' das ruas; ela era pequenina e curiosa. Quem nunca? Ainda em seus cinco anos, a inocência transbordava-lhe nas ações, como era notado naquele natal. Firme crente no gordo Papai Noel, a jovem delirava-se em sorrisos mais verdadeiros que o de um homem defronte a seu amor. Esperava ansiosa o emocional preço de um presente se...

Quarta-feira

          Fica a temer minha ausência futura; também eu o faço. Não deixo de pensar que quando for, vou acabar deixando tudo o que montei pra trás. Já fiz isso uma vez, afinal; já tive outros amigos de verdade, já tive outros "meus quartos", já tive outras amoras, já tive outros amores. Agora não tenho mais nada deles de modo concreto; e talvez nem tanto abstrato. Postergando meu afago por um atual amor em parágrafos seguintes, posso afirmar que não vou propriamente embora para a tal. Posso afirmar que, mesmo eu não tendo nada disso de novo no futuro, mesmo não sendo o que sou, mesmo não sorrindo como faço do lado de quem me tanto alegra; mesmo assim, posso afirmar que vai valer à pena.           Peço desculpas por não escrever com clareza, mas minha mente não está em condições de apaziguar quaisquer das minhas pertubações. Vejo só que preciso pensar, mais e mais. Coloco-me onde, por muito, retive-me. Crio a coragem para assumir um sen...

Ao extenuar o abrupto

          Quem é que vai mostrar para mim o que é viver? Tentar tirar esta dúvida dos conhecimentos alheios que impregna o que eu entendo como experiência. Alguém terá o carinho de passar por entre meus desentendimentos e, com tamanha afeição, ligar os pontos até que eu entenda, de fato, o que fazer?            Não. Ninguém. Pelo menos não com tamanha calma; não sendo tão fleumático. Ninguém vai querer, ninguém vai poder; da curva que circunda os meus problemas, só impero eu. Não sozinho, visto que consigo ver os escrúpulos dos que me rodeiam; não ansioso, porque prefiro manter os olhos aos meus próprios desprazeres.            Queria eu agora, suplicamente, poder (querer) mostrar para alguém o que é viver.            Queria eu agora me despedir do egoísmo.            Queria, devagarinho, aprender a me importar.

Sonho

        Pego um pedaço do seu sonho e quebro em dois menores. Depois pego um deles e bato contra o outro. Nessa hora o sonho já não é o mesmo. Percebe? para que fosse igual, teria de ter forma, trajetória temporal e espacial, tudo igual. Quando se volta com os fragmentos, só se prova a inabilidade da junção dos prazeres; melhor ainda, a criação de novas alegrias. Se o sonho é um beijo, quebra-se, mistura-se e você consegue o sexo. Se o sonho é um abraço, faça o mesmo e você consegue um amigo. Se o sonho é amor, repita incansavelmente e o que se obtém é um anel; ou uma casa, aos mais liberais. Não há problema em sonhar por si, eu creio. A insuficiência é que só sonhar o concreto não vai salientar o desejo. Esse vem quando trinca-se as ligações de estabilidade dos planos de vida; quando mesmo tudo dando errado, a meta em frente é sempre igual; quando quem entrar no caminho, seja quem for, esteja suscetível a ser tirado do seu viver. O mesmo sonho que vive fora da cama,...

Grande

          —  M as é gran de mesmo?           —  Enorme!           —  Quão grande? Tipo, se eu tocar, vou sentir?           —  Ele vai bater forte na sua mão que vai até doer!           —  Você tem muita estima nesse seu brinquedo, bobo!           —  Brinquedo nada! Ele serve só para te fazer mais feliz, já que é tão grande, boba!           —  O que diabos vocês estão falando sobre, crianças?           —  Ele está falando para mim do coração dele, mamãe! Ou melhor, do nosso!           —   Pequenos e bobos, vocês dois.           — Não, tia: grandes e apaixonados!          

Emocional rabiscado

          Toca em mim, ó passos de Cinderella, porque só de sentir a ponta da poeira dos teus sapatos, sei já que nada peço a mais. Vem como te danças; dança como te queres. Mulher que quebra razões, que treme meus dedos e dói meus olhos. Mulher que brilha, forte e colorida ou tenra em preto e branco. Mulher que existe mais que o mundo nas concepções de quem ama, mas que pouco vê o cansar do próprio.           Fadiga.           Simplória, medíocre, exaltada, repetida, desgastante, cansada, repetida, morta, repetida, repetida e repetida.           Sai! Para de denegrir o que resta de mim! Coloca teus sapatos nos pés e teus verbos nos lábios. Maldita lábia que molda um desenho de criatividades sonhadoras. Malditos olhos que me ensinam a ver o que refuto. Porém, nunca maldita sejas tu que, tão inocente, cultivou do meu amor à ira. Tento convencer perturbações de tua culpa, como o fiz em p...

Como eu posso?

          Como eu posso simplificar que não entendo? Não entendo, mas bem sei. Tento só conseguir sorrir e conseguir tocar um pedaço de alegria que vem devagarinho, de vez em quando. Quase nunca vem, porém sempre vai. Uma mecha de cabelos - nem lisos, nem crespos; nem secos, nem oleosos - um tanto coloridos e soltos por entre minhas mãos desaprendidas, fracas, suaves e, mesmo assim, cansadas.           Como eu posso mostrar que não vou entender agora? Funciona como um padrão de pedagogia: não se passa uma questão de mestrado ao mero juvenil do primário. Igualmente, não se espera de quem nada conhece, de tudo saber. Melhor dizendo, sei bem o que quero, sei como o quero e como o farei. Sei que não vou precisar de empurrões ou motivações como antes, sei que vai ser um alívio e que vou desfrutar de cada pedaço do futuro.           Como eu posso provar que não estou sendo ignorante? Minha mente, tida como supérflua,...

Mês passado

          Há algumas semanas meu antigo notebook queimou. Meu período de ausência deve-se ao tempo que levei para decidir se, de fato, compraria outro. Fi-lo e espero que agora volte eu a postar mais regularmente. E termino aqui.           Grato

Saudade

         Que vontade de segurar numa mão que balance perdidamente ao meu lado; vontade de ter, pelo menos, um olhar amigo e amoroso que minha mente sempre enganou-me ao dizer que já o tinha; vontade do beijo que nunca senti, mas já, tantas vezes, imaginei em lábios alheios. Vontade de conseguir um sorriso tosco e mal planejado, obtendo, assim, uma felicidade tamanha que meu melhor e mais quente sorriso não saberia se expressar sem ajuda da chuva que brota de cada olho meu. Tão novo e tão sonhador, pensam; talvez assim seja. Como é bom viver nisso, pensando e contemplando cada pedaço de inexistência, sem quaisquer escrúpulos ou desconfortos. Contemplar é trabalhar; pensar é agir -  já foi dito na França pós-revolução.           E, ainda imerso nos meus gozos constantes de momentos que já haviam de sucumbir, aqui vou eu; em meio às mais preenchidas lagoas de olhares e curiosidades, aqui vou eu. Nada que fosse inesperado com relação ...

Império do silêncio

          Ele tinha saído de casa para vê-la. Foi com uma barra de chocolate na mão, com todos os agasalhos que, no momento, tinha posse; pegou as chaves, já tremendo. Nem havia tocado a rua e já não sabia o que falar; pensava e pensava e tudo só ficava mais confuso. Como podia esperar alguma coisa tão cedo? Ele não sabia; tentava organizar inúmeras linhas das possíveis trajetórias que a conversa, quem sabe, viria a tomar. De nada adiantaria, tolo. Ligou para ela: "Posso passar aí?". Sorriu. O sabor do consentimento é mais virtuoso que as alegrias da riqueza. Sentiu um leve pulsar percorrer, desde a parte de cima do pescoço, até ir se dissipando pelas pernas. E, assim, ele foi.           Ela passara a manhã deitada sobre a cama com uns pijamas coloridos e felizes demais para aquela solidão. Ficava com os olhos na televisão, mas com a cabeça no peito. Não sabia o que sentia, ou sequer sentia alguma coisa; sabia só que era confuso. Sabia ...

Sozinho no banco de trás

          O pai dirigindo para que nós vejamos a mãe. São nove horas da manhã e tínhamos saído às oito. Não estava ainda quente, dava pra sentir o ventinho que entrava das janelas da frente - porque ele não me deixava abrir as de trás - batendo no meu rosto. Vento, este, que aumentava, toda hora que o velho ultrapassava alguém. Era engraçado e gostoso; eu abria a janela, mesmo sem ele deixar, e colocava a mão lá fora; só a mão. Daí eu a fechava, e o vento nada fazia. Depois eu a abria, e ele a empurrava para trás bem forte. Nessa, eu ficava brincando e meu pai chamava-me a atenção, calmamente, o que é de seu feitio: "Fecha o vidro, filho". E eu fechava.           Não tinha nem a mais vaga ideia do que fazia eu no carro. Não me importava, o mundo ainda era tão simplório, tão bonito, tão novo. E dava para vê-lo todo da janela. Dava pra ver os morros pequenos e todos verdes, os mais altos e só com pedras no topo, e, quando eu estava nos p...

Um de vários

          Fui assaltado.           Depois de um dia de, suposto, trabalho, descansei pela minha tarde seca e ainda mais esgotante que o começo daquela manhã. Nesta, onde o céu parecia amarelo, como uma folha suja de café. Nesta, mesmo, eu levantei; ou, a princípio, tentei levantar. O despertador tocou mais forte que o normal nos meus sonhos e, assim, estremeci. Tamanha sensação de agonia; grande era a dor em minha cabeça e o brandar dos estalos em minha coluna. Mas consenti. Era, enfim, final dos meus períodos de esforço e, portanto, haveria eu de me desgastar com apenas uma manhã? Certamente não! Assim sendo, tratei de me aprontar.           Pouparei qualquer leitor dos detalhes da manhã como um inteiro, pelo senso de rotina que foi cada minuto, nada digno de estar aqui, neste contexto. Voltemos.           Cheguei à minha casa, e pus-me a arrumar as malas: preparava-me para uma via...

           —  A gente vai lá mesmo?            —  Sim.            —  Mas e o cachorro? Ele pode morder a gente.            —  Ele não vai morder...            —  Como você sabe?            —  Eu não sei! Vem logo!            —  Mas eu não quero ir, o muro é alto. Se ele vier correndo eu vou ser devorado!            —  É culpa sua, menino! Ninguém mandou tentar dar uma de forte... Quer saber, dane-se. Você tá sozinho nessa merda. Vou esperar com os garotos.            —  Não! Espera! Volta! Porra...           Malditos. São todos malditos. Desgraçados, infelizes, babacas. Mas eu vou lá. Vou pegar e vou roubar pra mim. Esses malditos não vão me v...

Perda

          O vento está muito forte aqui. O vento e a chuva. Os vestígios de sol que passam pelas nuvens do fim de tarde são os únicos elementos que me esquentam. Os únicos de todo o lugar, de todo o mundo. Esse, mesmo tão grande, parece-me tão pequeno daqui. Deste banco de madeira com a marca das minhas unhas, com esta terra no topo dos meus sapatos e com todo este oceano azul-escuro que, mesmo tão cheio d'água, está menos molhado que meus olhos; e, ainda tão cheio de vida, aparenta estar tão só como eu.           Levanto-me, no topo deste penhasco.             —   Por... - as palavras não vêm.           Ainda de pé, abro os braços. Essa chuva que me empurra para a terra. Essas gotas de choro que vêm do céu para me salvar. Como isso pôde acontecer? Meus soluços não se manifestam. A garganta arde de prévios gemidos. Dói, é demais. E, nisso, o mar sacode; ele em pesadelos, igua...

Amedrontado

          Nossos pés entrelaçados. Você a dormir bem à minha frente. Não estamos cobertos neste frio, pelo calor que nossos corpos emanam. Eu sinto seu nariz na ponta do meu, o seu cabelo se desfazendo sobre os meus dedos e as covas de suas maçãs em ênfase pelos meus beijos que te fazem sorrir em seu sono. Não vou dormir esta noite. Eu sei. Eu sei que vou querer ficar te olhando. Vou querer dançar com minhas mãos pelas suas curvas, e ver seu corpo balançar enquanto respira.           Mantenho as lembranças da noite que, para você, já terminou. A madrugada começou em calafrios, passou pelos seus calores e atritos sebosos, terminando na satisfação dos júbilos quentes como os meus medos. Seus beijos que me umedecem, começam pelos meus pés, sobem por entre minhas pernas, pelo peito até o pescoço. Caminho em seu decote. Minha face áspera toca em seus seios enquanto os lábios envolvem seus ápices. Dançamos e sacudimos. Não somos nós dois, nem...

Guerra

           Escrevo banhado à lágrimas. Lágrimas que não são só minhas. Lágrimas que carregam o pesar dos meus amores. Lágrimas que, uma vez, foram os meus maiores sorrisos. Escrevo sem saber como. Com meus dedos tremendo. Meus olhos embaçados e meu coração queimando. Escrevo porque me desespero. Não há calma nem sossego nestas palavras. Medo, horror e... despedida. Lágrimas de fósforos que se acendem ao tocar minhas bochechas. Bochechas vermelhas pelo calor. Calor que me derrete e me destrói. E, em meio a todos os piques de 'adeus' que eu, em breve, darei, despejo prévias lágrimas pelo único que torna meus soluços mais úmidos que o mar.           Titubeando como se não fosse mais possível. O melhor amigo que se pode pensar. Substância que se evidencia na simples companhia. Não vou saber te dizer isso quando te ver, meu amigo de dois anos e meio. Meu melhor amigo de dois anos e meio. Você, parte do que compõe os meus, poucos, sorris...

Orgulho cego

           De longe, eu vi a fábrica. A estrada passava de terra à asfalto. E o guarda assobiava.             —   Alto lá! Quem vem? - a poeira parecia incrementar o astigmatismo do senhor guarda.             —   Francisco, pai de João, que aqui trabalha. Mostrei-lhe o crachá de meu filho, que o havia esquecido em casa.             — João? Desconheço - e depois de olhar para as identificações por alguns longos segundos -  Ah sim! O número 19200! Ele trabalha no setor de limpeza.            Aquele era meu primeiro dia visitando meu filho. Que orgulho! O chão estava recheado com o suor de trabalhadores satisfeitos com sua utilidade da sociedade. Eu via em seus rostos melados e sebosos o reflexo da vitória. Aquilo é que era vida. Submetidos ao simples ato de apertar um botão ou mexer uma alavanca, eles vivenciavam cada mo...

Por que?

          Quando digo às pessoas que estou escrevendo, elas, geralmente, não perguntam sobre o que escrevo. Não perguntam nada específico sobre quaisquer possibilidades da minha inserção para um papel. Ocorre, quase sempre, uma pergunta bem simples e, de certo modo, bem complexa: "Por que?"           Por que escrevo? Por que faço isso? Se o faço bem para mim ou se o faço mal para alguns, é-me indiferente. Então são pelas ideias? Ideias vêm e vão, ideias são fáceis de se pensar, difíceis de se entender. Já acho difícil pensar, então entender torna-se algo incompreensível às vezes, diga-se de passagem. Pois bem, por que escrevo? Me sinto bem, em parte, no processo. Isso varia, contudo. Escrevendo melancolias, fico apto; escrevendo alegrias, fico invejoso; escrevendo sobre amores, fico confuso; e escrevendo sobre medo, fico indifer...

Memórias de um pugilista

          Nunca fui bem em estudos. Esforço não me faltava; incessantes disputas com integrantes de minha antiga classe só resultavam em desapontamentos. Acho que depois de vivenciar tamanho nível de intelectualidade por parte das mentes que conhecia, tornou-se evidente que aquilo não era pra mim. E, com o tempo, isso foi mostrando-se mais claro: terminei o ensino médio e não sucedi em nenhum de meus concursos, conquanto tenha distendido até as últimas fibras do meu psicológico.           Filho de uma empregada e de um falecido pai, tentei usufruir do que me foi ensinado: trabalho doméstico. Cresci como um nômade, "morando" nas casas das pessoas na qual minha mãe trabalhava. Acho que isso facilitou meu entendimento em limpar, cozinhar, varrer, esfregar, desinfetar e educar os filhos dos patrões, visto que acompanhei o esforço de minha dona por muitos anos. Pude perceber, nesse meu emprego e no de minha mãe, o preconceito. Os integrantes...

Lençóis

          Aquele momento estava diferente. Nada fazia muito sentido. O tempo era-me irrelevante, ele sempre parecia o mesmo. De hora em hora, meu corpo doía. As costas estalavam, o pescoço sentia o torcicolo do cotidiano e os pés pareciam dormentes. Mas nada incomodava, nada tinha muita importância.          Estava em um lugar fechado, mas eu via o céu. Estava em terra, mas com os pés sob ondas. Pensava com razão, numa situação onde o ilógico imperava; asas dracônicas pendiam em minha coluna, enquanto o mundo se estirava sob meus olhos. Estranho. Nunca tinha visto nada daquilo tudo. Nunca havia podido interagir com tudo e tanto e, ainda assim, me sentir tão seguro, me sentir tão poderoso. Aquele mundo era meu. Os olhares desconfigurados dos seres à minha volta montavam-se ao meu comando. Sob minhas sombras dorsais, havia o meu exército. Meu. Eu tinha aquilo, era só meu. Criava-os e destruía-os. Juntei as peças que compunham os rostos d...

Aspereza

          Um menino come uma manga que ele pegou na sua rua. Sob aquela mangueira, na rua, ele já fez de tudo: jogar futebol com o asfalto marcado à poeira de tijolos, corrida de extremos inalcançáveis, descidas de bicicletas na ladeira, todos os piques - pega, esconde, bandeira, altinho, parede. Ele come uma manga bem doce, daquelas que ele sabe que vai ficar sem comer por meses, porque quase nunca aquela mangueira dava frutos. Ele saboreava devagar enquanto, ao lado de seus pés, havia um gafanhoto. Uma criatura descomunal, do nível Animal Planet - aqueles bichos que você acha que vieram da Austrália, para dizimar até os menores vestígios de vida - um ser do tamanho da palma de um homem. Era bem verde, com alguns toques laranjas e amarelos. Mesclava-se com a grama da calçada, frente ao muro que tinha seu pedaço destruído pelo crescimento da mangueira. O menino larga a manga. Sua fome pelo perigo é maior que qualquer dor no estômago. "Mas e se ele me morder?"; "...

Dia das mães

          Hoje foi dia das mães. Liguei para minha querida, desejei-a um ótimo dia e disse que a amava, como qualquer bom filho. Até aí sigo um padrão que fez-se rotina nos meus dezessete anos de vida. Vou tentar, agora, inovar: sabe aqueles flashes que nós temos das nossas primeiras memórias? Vou usá-los nessa mini-história, e tentar desenvolver junto às afeições de minha mãe.           Minha lembrança de largada, começa em uma escada. Na escada da minha casa, bem no topo. Eu comecei a pensar naquela momento, ou pelo menos comecei a me dar conta de que pensava; notei que estava vestindo uma blusa do Brasil, uma manga amarela e outra verde, com uma bola de futebol no meio. No meio do ápice das minhas reflexões, me dei conta de que pensar e descer a escada ao mesmo tempo era muito complicado e, assim, caí. Nada sério, afinal, aqui estou.           Recordo que o rosto da minha mãe sempre me fora familiar. Mesmo ...