Aspereza
Um menino come uma manga que ele pegou na sua rua. Sob aquela mangueira, na rua, ele já fez de tudo: jogar futebol com o asfalto marcado à poeira de tijolos, corrida de extremos inalcançáveis, descidas de bicicletas na ladeira, todos os piques - pega, esconde, bandeira, altinho, parede. Ele come uma manga bem doce, daquelas que ele sabe que vai ficar sem comer por meses, porque quase nunca aquela mangueira dava frutos. Ele saboreava devagar enquanto, ao lado de seus pés, havia um gafanhoto. Uma criatura descomunal, do nível Animal Planet - aqueles bichos que você acha que vieram da Austrália, para dizimar até os menores vestígios de vida - um ser do tamanho da palma de um homem. Era bem verde, com alguns toques laranjas e amarelos. Mesclava-se com a grama da calçada, frente ao muro que tinha seu pedaço destruído pelo crescimento da mangueira. O menino larga a manga. Sua fome pelo perigo é maior que qualquer dor no estômago. "Mas e se ele me morder?"; "Mas e se não?". Não, ele morde sim. O menino foi embora, com medo. Não tinha provas ou evidências, mas só a memória de uma colossal besta que vivia por entre aquela mata de uma calçada suja.
O menino, agora garoto, quer se sentir um homem. Ele sabe que é capaz, não tem dúvida disso. Decide começar o progresso na manhã: ele diz que vai para a escola... sozinho. Por que não? Ele sabe pedalar, puff! Seis e cinco da manhã. Terceiro toque do alarme. A desgraça da cachorra não para de latir da cozinha e, assim, acorda todos os cachorros da vizinhança, que, assim, começam a latir de suas cozinhas e, assim, destroem a rotina de cada garoto como o garoto. Mas ele está feliz. Ele vai para a escola sozinho. Não com a mãe. Não com o pai. Só ele e a bicicleta. Ele e a Caloi da década de 90 prateada, full alumínio, que não deve aguentar um semi leitão, mas ele vai. Coloca suas roupas com uma ânsia tão fervorosa que esquece de seu banho. Não se importava, queria sair; ainda que precisasse ajeitar o cabelo, não o fez. Abriu o forno, enfiou a crua mão para pegar um filete de pão com manteiga que sua mãe estava preparando e proferiu as palavras mais conhecidas de um pivete em saída: "Tô indo, mãe, abraç...!". Ele já estava na rua. Ele não se importava. Ele era um garoto(homem). Subiu a ladeira para provar que era como tal, e subia e subia e subia. Até que ele viu.
Eram seis e vinte da manhã. Sua aula começava às sete. No topo da colina, a caminho da escola, o garoto parou. Ele viu. Ou melhor, ele não viu. Cinza. Neblina. "De manhã, o mundo é morto", pensou. O garoto sentiu o primeiro toque de responsabilidade que já lhe aconteceu. Tudo pelas suas próprias ações. Arrependeu-se, a princípio, por causa do frio. O sereno da noite ainda dormia por entre o morro. Ele tentava ver o fundo, na esperança de aquecer, pelo menos, sua consciência. Não conseguiu e, assim sendo, decidiu descer. Pobrezinho. Usando uma mera camisa escolar para garotos. Uma camisa que, assim como ele, não sabia lidar com a responsabilidade de um homem. Uma camisa que, assim como ele, não resistiu ao frio ainda no topo. Imagine na descida! E ele foi. A bicicleta pedia para frear, do começo ao fim. Mas ele não o fez. Ele queria sentir aquele momento. Ele queria pegar o gafanhoto. A onda do frio o cristalizava. Seus cristalinos embaçaram-se, as gengivas tremeram e as mãos, piores vítimas, não se lembravam, sequer, dos freios. Ele não chorou. Ele foi até o final. Ele viajou pelo espaço e tempo e, cem metros à frente, ainda sobre a bicicleta em movimento incessante, ele abriu os braços e gritou. Nada de palavras. Nada de barulhos. Nenhum som, sequer. Ele gritou felicidade. Ele gritou porque ele sabia que era o que era. Ele gritou porque sabia que era um homem.
O garoto, agora rapaz, vivenciava a ênfase masculina. Desmembrando suas evoluções, ele agora era outro. Em seu corpo, músculos se sobressaiam, onde ele jamais imaginava possível: As panturrilhas endureciam, as coxas riam do conceito de duro; elas já eram pedras. Os bíceps sobrepunham o seu próprio ego. Sua face tornava-se robusta. Robusta e seca, quadriculada, como um homem. Um homem que já viveu de tudo e só não o tinha demonstrado. De orelha à orelha fechou-se a barba. Ainda tão recente mas já tão... áspera. Ele a tocou. Primeiro com a ponta dos dedos no queixo. Depois já abria as mãos para tocá-la. Depois seus ombros esbarravam-na, seu peitoral, seus filetes de cabelo. E, como se não tivesse mais o que tocá-la, ele dançava com suas amostras de responsabilidade nos pescoços de mulheres da vida. Pobrezinho do rapaz. Sucumbia à própria arrogância. Ele havia se esquecido de gafanhotos. Gafanhotos mordem.
O rapaz investe no seu egoísmo. Rios femininos, monetários corruptos, e ele ainda grita. Grita seus júbilos, goza às estrelas. Ele é infinito. Mas não. Ele não trabalhava. Ele não estudava. Ele não fazia nada. E ele mesmo notou isso. Sem fator direto. Ele viu a neblina de novo. Só que mais abaixo. Sustentado com dinheiro que não era dele - emprestado, apostado, senão roubado - o rapaz vivia com seu sorriso de garoto. Quantas colinas desceu até ali. Perdeu as contas, já era irrelevante. Contudo, num dia, num simples dia de ócio, ele se olhou no espelho. Ele via. Ah, ele via. Sob a face robusta amassada, sob os bíceps usados, sob as pernas de aço em ferrugem; sob ele estava um menino. Um mero devorador de mangas. Mas como? Seus pelos da cara haviam caído, sua face estava lisa. Ele tocou uma mão. Ele tocou as duas. E ele se debatia com as mãos, mas suas mãos nada faziam e ele apavorava e encolhia e gritava e gritava e gritava, nada feliz, ele gritava pânico, estava doendo e estava insuportável... Ele chorou. Ele não era um homem. Ele era uma marca. A marca da mordida de um gafanhoto sem dentes.
O rapaz, agora... nada, recompôs-se. Arrumou algumas malas e partiu, sabe-se lá onde. O rapaz aprendeu tudo, mas o rapaz não sabia nada. Ele agora reconhecia o perigo. O perigo da responsabilidade. Responsabilidade na barba da face de um homem. Ele devotou-se a melhorar. Entendia e, agora, respeitava o medo. Respeitava o frio da colina. Respeitava o gafanhoto. Por estúpido que tornou-se, respeitava até a manga. Mas, assim, ele o fazia. Contudo, realizava tudo isso na expectativa de um simples menino que, com sua face lisa, aspirava à aspereza.
O menino, agora garoto, quer se sentir um homem. Ele sabe que é capaz, não tem dúvida disso. Decide começar o progresso na manhã: ele diz que vai para a escola... sozinho. Por que não? Ele sabe pedalar, puff! Seis e cinco da manhã. Terceiro toque do alarme. A desgraça da cachorra não para de latir da cozinha e, assim, acorda todos os cachorros da vizinhança, que, assim, começam a latir de suas cozinhas e, assim, destroem a rotina de cada garoto como o garoto. Mas ele está feliz. Ele vai para a escola sozinho. Não com a mãe. Não com o pai. Só ele e a bicicleta. Ele e a Caloi da década de 90 prateada, full alumínio, que não deve aguentar um semi leitão, mas ele vai. Coloca suas roupas com uma ânsia tão fervorosa que esquece de seu banho. Não se importava, queria sair; ainda que precisasse ajeitar o cabelo, não o fez. Abriu o forno, enfiou a crua mão para pegar um filete de pão com manteiga que sua mãe estava preparando e proferiu as palavras mais conhecidas de um pivete em saída: "Tô indo, mãe, abraç...!". Ele já estava na rua. Ele não se importava. Ele era um garoto(homem). Subiu a ladeira para provar que era como tal, e subia e subia e subia. Até que ele viu.
Eram seis e vinte da manhã. Sua aula começava às sete. No topo da colina, a caminho da escola, o garoto parou. Ele viu. Ou melhor, ele não viu. Cinza. Neblina. "De manhã, o mundo é morto", pensou. O garoto sentiu o primeiro toque de responsabilidade que já lhe aconteceu. Tudo pelas suas próprias ações. Arrependeu-se, a princípio, por causa do frio. O sereno da noite ainda dormia por entre o morro. Ele tentava ver o fundo, na esperança de aquecer, pelo menos, sua consciência. Não conseguiu e, assim sendo, decidiu descer. Pobrezinho. Usando uma mera camisa escolar para garotos. Uma camisa que, assim como ele, não sabia lidar com a responsabilidade de um homem. Uma camisa que, assim como ele, não resistiu ao frio ainda no topo. Imagine na descida! E ele foi. A bicicleta pedia para frear, do começo ao fim. Mas ele não o fez. Ele queria sentir aquele momento. Ele queria pegar o gafanhoto. A onda do frio o cristalizava. Seus cristalinos embaçaram-se, as gengivas tremeram e as mãos, piores vítimas, não se lembravam, sequer, dos freios. Ele não chorou. Ele foi até o final. Ele viajou pelo espaço e tempo e, cem metros à frente, ainda sobre a bicicleta em movimento incessante, ele abriu os braços e gritou. Nada de palavras. Nada de barulhos. Nenhum som, sequer. Ele gritou felicidade. Ele gritou porque ele sabia que era o que era. Ele gritou porque sabia que era um homem.
O garoto, agora rapaz, vivenciava a ênfase masculina. Desmembrando suas evoluções, ele agora era outro. Em seu corpo, músculos se sobressaiam, onde ele jamais imaginava possível: As panturrilhas endureciam, as coxas riam do conceito de duro; elas já eram pedras. Os bíceps sobrepunham o seu próprio ego. Sua face tornava-se robusta. Robusta e seca, quadriculada, como um homem. Um homem que já viveu de tudo e só não o tinha demonstrado. De orelha à orelha fechou-se a barba. Ainda tão recente mas já tão... áspera. Ele a tocou. Primeiro com a ponta dos dedos no queixo. Depois já abria as mãos para tocá-la. Depois seus ombros esbarravam-na, seu peitoral, seus filetes de cabelo. E, como se não tivesse mais o que tocá-la, ele dançava com suas amostras de responsabilidade nos pescoços de mulheres da vida. Pobrezinho do rapaz. Sucumbia à própria arrogância. Ele havia se esquecido de gafanhotos. Gafanhotos mordem.
O rapaz investe no seu egoísmo. Rios femininos, monetários corruptos, e ele ainda grita. Grita seus júbilos, goza às estrelas. Ele é infinito. Mas não. Ele não trabalhava. Ele não estudava. Ele não fazia nada. E ele mesmo notou isso. Sem fator direto. Ele viu a neblina de novo. Só que mais abaixo. Sustentado com dinheiro que não era dele - emprestado, apostado, senão roubado - o rapaz vivia com seu sorriso de garoto. Quantas colinas desceu até ali. Perdeu as contas, já era irrelevante. Contudo, num dia, num simples dia de ócio, ele se olhou no espelho. Ele via. Ah, ele via. Sob a face robusta amassada, sob os bíceps usados, sob as pernas de aço em ferrugem; sob ele estava um menino. Um mero devorador de mangas. Mas como? Seus pelos da cara haviam caído, sua face estava lisa. Ele tocou uma mão. Ele tocou as duas. E ele se debatia com as mãos, mas suas mãos nada faziam e ele apavorava e encolhia e gritava e gritava e gritava, nada feliz, ele gritava pânico, estava doendo e estava insuportável... Ele chorou. Ele não era um homem. Ele era uma marca. A marca da mordida de um gafanhoto sem dentes.
O rapaz, agora... nada, recompôs-se. Arrumou algumas malas e partiu, sabe-se lá onde. O rapaz aprendeu tudo, mas o rapaz não sabia nada. Ele agora reconhecia o perigo. O perigo da responsabilidade. Responsabilidade na barba da face de um homem. Ele devotou-se a melhorar. Entendia e, agora, respeitava o medo. Respeitava o frio da colina. Respeitava o gafanhoto. Por estúpido que tornou-se, respeitava até a manga. Mas, assim, ele o fazia. Contudo, realizava tudo isso na expectativa de um simples menino que, com sua face lisa, aspirava à aspereza.
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