Orgulho cego

           De longe, eu vi a fábrica. A estrada passava de terra à asfalto. E o guarda assobiava.
            Alto lá! Quem vem? - a poeira parecia incrementar o astigmatismo do senhor guarda.
            Francisco, pai de João, que aqui trabalha. Mostrei-lhe o crachá de meu filho, que o havia esquecido em casa.
           — João? Desconheço - e depois de olhar para as identificações por alguns longos segundos - Ah sim! O número 19200! Ele trabalha no setor de limpeza.
           Aquele era meu primeiro dia visitando meu filho. Que orgulho! O chão estava recheado com o suor de trabalhadores satisfeitos com sua utilidade da sociedade. Eu via em seus rostos melados e sebosos o reflexo da vitória. Aquilo é que era vida. Submetidos ao simples ato de apertar um botão ou mexer uma alavanca, eles vivenciavam cada momento com uma alegria inigualável. Dava para ouvi-los: fortes brados e gemidos de satisfação, em harmonia com o ranger das engrenagens. As únicas janelas da fábrica davam-se nos sorrisos dos funcionários. Afinal, o que é o mundo para quem, assim, vive tão bem? Para que qualquer contato de fora, sim? Eles usavam as máquinas da produção, enquanto eles próprios eram máquinas. As máquinas da economia! Que orgulho!
           Meu filho, João, era um revitalizador. Ele que dava lugar ao próximo suor no chão, com sua vassoura. Ele que cobre o corpo dos constituintes da globalização com suas roupas pós-lavadas. Ele faz cada aparelho e máquina brilhar, junto a um novo dia, para reiniciar o processo de satisfação. Satisfação... Uma satisfação emocional, nada monetária. Não usufruíam do bem produzido. Mas por que iriam? Eles deveriam amar o som das engrenagens, amar o suor, amar verem a si mesmo nos espelhos com suas roupas proletárias e seus filhos, a observarem por detrás da porta, aspirando ao cheiro do gás e da ferrugem. Eu tinha orgulho de cada um deles!
            — João!
           Ele veio até mim. Suas mãos tremiam e seus dedos estavam vermelhos. Aposto que apertara a vassoura em sua mão com tanta força pela alegria em ver seu pai, em mostrá-lo como cresceu! Abraçou-me. Vi os olhos brilhantes, que pareciam inchar e pingar, como que quisessem dizer alguma coisa. Sua boca queria se abrir, mas o suor seco nas curvas do maxilar não deixavam as bochechas se esticarem. Antes que conseguisse me dizer qualquer coisa, toquei sua face. Senti a barba por fazer, os cabelos caindo até o nariz, e disse:
            — Trouxe seu crachá. Não precisa agradecer ou se desculpar, fico feliz em te ver ativo, meu filho.
            Virei-me e fui embora. E no final do corredor, olhei para o meu filho, de novo. Meu filho que não acenou nem sorriu. Meu filho com a cara brilhante e com um semblante inflexível.
            Ao continuar no caminho, mais uma vez, pude ouvir seu choro de satisfação pelo trabalho por entre as máquinas.
              — Papai...
              — Meu filho!

              Que orgulho!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gota