Memórias de um pugilista
Nunca fui bem em estudos. Esforço não me faltava; incessantes disputas com integrantes de minha antiga classe só resultavam em desapontamentos. Acho que depois de vivenciar tamanho nível de intelectualidade por parte das mentes que conhecia, tornou-se evidente que aquilo não era pra mim. E, com o tempo, isso foi mostrando-se mais claro: terminei o ensino médio e não sucedi em nenhum de meus concursos, conquanto tenha distendido até as últimas fibras do meu psicológico.
Filho de uma empregada e de um falecido pai, tentei usufruir do que me foi ensinado: trabalho doméstico. Cresci como um nômade, "morando" nas casas das pessoas na qual minha mãe trabalhava. Acho que isso facilitou meu entendimento em limpar, cozinhar, varrer, esfregar, desinfetar e educar os filhos dos patrões, visto que acompanhei o esforço de minha dona por muitos anos. Pude perceber, nesse meu emprego e no de minha mãe, o preconceito. Os integrantes das famílias de contratamento frequentemente deixavam uma falta de carinho ou valor à flor da pele. O que fazer? Eu aprendi a consentir. Aprendi que era normal ser desvalorizado, que depois de ver os filhos dos patrões nos jogarem comida, depois dos chefes bêbados chamarem minha mãe de puta, depois de ouvir as patroas chamando a gente de "essa gente", até o cachorro deles parecia olhar para nós com desgosto. Mas, no meio disso, minha mãe, uma mera empregada, me ensinou três coisas que ficaram marcadas: não me subestimar, me esforçar e respeitar os outros. Mesmo que eles fossem péssimos. Mesmo se a criança me batesse, mesmo se o cachorro me mordesse. Mesmo se o patrão abusasse da minha mãe ou se a patroa falasse merda de nós. Eu aprendi o valor do respeito.
Comecei minha saga de trabalho em um início de ano. Minha mãe, já falecida há alguns poucos meses, provavelmente não se orgulharia. Ela sabia que eu não gostava de ficar vendo-a sob tanta pressão. Acredito que é assim, porque ela não notaria o meu conforto em saber que o peso saiu de suas cansadas costas. Entretanto, pra que discutir? A velha já não vive, certo? Aperfeiçoei as técnicas que já dominava: tornei-me maestro no concerto dos talheres prateados, virei tutor dos sonhos heroicos das crianças sob minha vigília e isso enquanto tinha total conhecimento dos milhões de cantos de suas casa, mais ainda que esses donos que mal sabiam se limpar...Perdão... Eu aprendi o valor do respeito, mas isso não significa que eu gostava de mantê-lo. Porém, eu tentava. Sempre que possível, eu tentava.
Fui às compras para a patroa, num dia como outro qualquer. Lembro que comprei água sanitária, ovos e alguns pães. Paguei e saí. A caminho de uma casa que não era minha, com suprimentos que não eram meus, por uma rua que não era minha, vi uma menininha com uma mochila. Achei estranho, porque estava já de noite, e escolas abrem pela manhã nesse bairro. Indiferente, eu tinha que voltar para a patroa. No entanto, por estar muito escuro e vazio nas ruas, senti preocupação pela garota. Acreditava que aquela responsabilidade era, sim, minha. Mantive-me à sua distância, sem pegar quaisquer atalhos, para que a pequena alcançasse algum trecho menos tenebroso e eu seguisse, por fim, o meu caminho. Mal podia eu suspeitar que a escolta seria a sorte da menina; e a minha, de certa forma. Um homem se aproximou dela. Por estar muito escuro, acho que não notou em mim, e eu, com meus olhos finalmente acostumados à escuridão, pude reparar em suas ações. O homem a atacou. Segurou seu fino pescoço e pegou em sua mochila, como que em procura a algum objeto de valor. A menina se rebatia e tentava gritar e ele a pressionava cada vez mais, segurava sua boca e danificava seus frágeis contornos, e eu vi aquilo com medo, com muito medo da menina não aguentar e ela começou a sangrar e ele começou a rir e...
Sangue. Minhas mãos pingavam sangue. Um sangue que, também, não era meu. Um sangue que brilhava, um sangue que dava cor aos meus punhos. Meus punhos cerrados. Linhas mais escuras do sangue reuniam-se nos filetes de pelos sobre meus dedos. Pelos, estes, que só serviam para grudar em molhos de comida que eu preparava à patroa. Estes mesmos pelos agora pendiam sangue de um homem nocauteado ao lado de uma criança amedrontada...Mas como foi bom...Como foi bom socá-lo.
As compras estavam no chão. A água sanitária vazou, os ovos quebraram e os pães já se recheavam de insetos. A menina estava fraca e, assim, levei-a no colo até sua casa. Depois voltei, disse à patroa o que havia acontecido e minha amada chefia pediu que eu voltasse ao mercado para comprar as mesmas coisas.
Voltando do mercado, pela segunda vez, decidi ver ao longe o lugar onde soquei o homem. Ele não estava lá. Só o sangue no chão. O mesmo sangue que eu não tirei todo dos meus punhos. Ele me deu prazer. Fiz aquilo com meu próprio esforço, meu próprio instinto, meu próprio eu. Destrocei os princípios de respeito, pelo bem de uma inocente garota, e senti-me feliz. Não por salvar a inofensiva vítima, mas por desfigurar o rosto daquele homem. Me alegrei com o que eu podia fazer. Gozei aos poderes do meu punho cerrado.
No dia após o incidente, acordei com saudades do sentimento. Levantei-me da cama e, sobre o chão de um quarto de dois metros quadrados, golpeei o ar. Meus joelhos se dobraram levemente, e a cada soco eu, naturalmente, coordenava meu ritmo. Pé esquerdo à frente, os dois punhos colados as bochechas, sob o nariz. Conhecia aquilo. Aquilo era peek-a-boo. Lembrei que minha mãe vivia criticando Mike Tyson nas suas lutas na TV do patrão. Mike Tyson que lutava boxe. Boxe...
— Boxe!
Era isso! Era isso que fazia meus punhos vibrarem! Era isso que eu sabia que valeria à pena. Como me empolguei. Os golpes em meu pequeno quarto desferidos aumentavam sua frequência. Via minha postura no pequeno espelho. Eu não nasci para andar ou correr ou dormir. Eu nasci para aquela postura, para aqueles olhos preparados, para aqueles punhos cerrados. Arrepiei. Estava ávido por mais daquilo. E consegui.
Naquela mesma manhã, fui ao clube de treino, tentar começar minha carreira profissional. Como precisava de dinheiro, mantive-me como trabalhador doméstico por mais algum tempo. Tempo para que eu pudesse lutar no meu primeiro campeonato, alguns meses depois.
Eu me recordo de como foi a primeira vez no ringue. Depois de treinar com um saco de areia por dias seguidos, não achei que a emoção seria ficar entre aquelas cordas elásticas. Como me enganei. Na entrada do torneio do campeonato de novatos, eu senti tudo o que eu poderia. As luzes batiam forte nos meus olhos, enquanto eu entrava pelo corredor. Tocou alguma merda que o treinador tinha colocado na minha entrada. Não ouvi, sequer, um trecho da melodia. Em cima do ringue eu olhei meu adversário nos olhos. Olhos que, como os meus, estavam prontos para lutar. Olhos que carregavam o nobre preço de um punho cerrado. Eu gostei daquilo. Olhei para a platéia. Inúmeras pessoas que vigiavam os movimentos que ainda iriam acontecer. Pessoas que sabiam o valor de uma postura. Estava contando os segundos.
Na iminência da batalha, eu senti minha mãe na plateia. Ela, que me ensinou tudo, devia sentir um pouco de orgulho. Acho que ela sentia isso por ver seu filho não se subestimar, por vê-lo conquistar o seu respeito e valor. Mas acima de tudo, sei que nossas alegrias se fundiram, indiferentes às barreiras celestiais, pela simples chance de presenciar o nascimento de um, esforçado, pugilista.
Filho de uma empregada e de um falecido pai, tentei usufruir do que me foi ensinado: trabalho doméstico. Cresci como um nômade, "morando" nas casas das pessoas na qual minha mãe trabalhava. Acho que isso facilitou meu entendimento em limpar, cozinhar, varrer, esfregar, desinfetar e educar os filhos dos patrões, visto que acompanhei o esforço de minha dona por muitos anos. Pude perceber, nesse meu emprego e no de minha mãe, o preconceito. Os integrantes das famílias de contratamento frequentemente deixavam uma falta de carinho ou valor à flor da pele. O que fazer? Eu aprendi a consentir. Aprendi que era normal ser desvalorizado, que depois de ver os filhos dos patrões nos jogarem comida, depois dos chefes bêbados chamarem minha mãe de puta, depois de ouvir as patroas chamando a gente de "essa gente", até o cachorro deles parecia olhar para nós com desgosto. Mas, no meio disso, minha mãe, uma mera empregada, me ensinou três coisas que ficaram marcadas: não me subestimar, me esforçar e respeitar os outros. Mesmo que eles fossem péssimos. Mesmo se a criança me batesse, mesmo se o cachorro me mordesse. Mesmo se o patrão abusasse da minha mãe ou se a patroa falasse merda de nós. Eu aprendi o valor do respeito.
Comecei minha saga de trabalho em um início de ano. Minha mãe, já falecida há alguns poucos meses, provavelmente não se orgulharia. Ela sabia que eu não gostava de ficar vendo-a sob tanta pressão. Acredito que é assim, porque ela não notaria o meu conforto em saber que o peso saiu de suas cansadas costas. Entretanto, pra que discutir? A velha já não vive, certo? Aperfeiçoei as técnicas que já dominava: tornei-me maestro no concerto dos talheres prateados, virei tutor dos sonhos heroicos das crianças sob minha vigília e isso enquanto tinha total conhecimento dos milhões de cantos de suas casa, mais ainda que esses donos que mal sabiam se limpar...Perdão... Eu aprendi o valor do respeito, mas isso não significa que eu gostava de mantê-lo. Porém, eu tentava. Sempre que possível, eu tentava.
Fui às compras para a patroa, num dia como outro qualquer. Lembro que comprei água sanitária, ovos e alguns pães. Paguei e saí. A caminho de uma casa que não era minha, com suprimentos que não eram meus, por uma rua que não era minha, vi uma menininha com uma mochila. Achei estranho, porque estava já de noite, e escolas abrem pela manhã nesse bairro. Indiferente, eu tinha que voltar para a patroa. No entanto, por estar muito escuro e vazio nas ruas, senti preocupação pela garota. Acreditava que aquela responsabilidade era, sim, minha. Mantive-me à sua distância, sem pegar quaisquer atalhos, para que a pequena alcançasse algum trecho menos tenebroso e eu seguisse, por fim, o meu caminho. Mal podia eu suspeitar que a escolta seria a sorte da menina; e a minha, de certa forma. Um homem se aproximou dela. Por estar muito escuro, acho que não notou em mim, e eu, com meus olhos finalmente acostumados à escuridão, pude reparar em suas ações. O homem a atacou. Segurou seu fino pescoço e pegou em sua mochila, como que em procura a algum objeto de valor. A menina se rebatia e tentava gritar e ele a pressionava cada vez mais, segurava sua boca e danificava seus frágeis contornos, e eu vi aquilo com medo, com muito medo da menina não aguentar e ela começou a sangrar e ele começou a rir e...
Sangue. Minhas mãos pingavam sangue. Um sangue que, também, não era meu. Um sangue que brilhava, um sangue que dava cor aos meus punhos. Meus punhos cerrados. Linhas mais escuras do sangue reuniam-se nos filetes de pelos sobre meus dedos. Pelos, estes, que só serviam para grudar em molhos de comida que eu preparava à patroa. Estes mesmos pelos agora pendiam sangue de um homem nocauteado ao lado de uma criança amedrontada...Mas como foi bom...Como foi bom socá-lo.
As compras estavam no chão. A água sanitária vazou, os ovos quebraram e os pães já se recheavam de insetos. A menina estava fraca e, assim, levei-a no colo até sua casa. Depois voltei, disse à patroa o que havia acontecido e minha amada chefia pediu que eu voltasse ao mercado para comprar as mesmas coisas.
Voltando do mercado, pela segunda vez, decidi ver ao longe o lugar onde soquei o homem. Ele não estava lá. Só o sangue no chão. O mesmo sangue que eu não tirei todo dos meus punhos. Ele me deu prazer. Fiz aquilo com meu próprio esforço, meu próprio instinto, meu próprio eu. Destrocei os princípios de respeito, pelo bem de uma inocente garota, e senti-me feliz. Não por salvar a inofensiva vítima, mas por desfigurar o rosto daquele homem. Me alegrei com o que eu podia fazer. Gozei aos poderes do meu punho cerrado.
No dia após o incidente, acordei com saudades do sentimento. Levantei-me da cama e, sobre o chão de um quarto de dois metros quadrados, golpeei o ar. Meus joelhos se dobraram levemente, e a cada soco eu, naturalmente, coordenava meu ritmo. Pé esquerdo à frente, os dois punhos colados as bochechas, sob o nariz. Conhecia aquilo. Aquilo era peek-a-boo. Lembrei que minha mãe vivia criticando Mike Tyson nas suas lutas na TV do patrão. Mike Tyson que lutava boxe. Boxe...
— Boxe!
Era isso! Era isso que fazia meus punhos vibrarem! Era isso que eu sabia que valeria à pena. Como me empolguei. Os golpes em meu pequeno quarto desferidos aumentavam sua frequência. Via minha postura no pequeno espelho. Eu não nasci para andar ou correr ou dormir. Eu nasci para aquela postura, para aqueles olhos preparados, para aqueles punhos cerrados. Arrepiei. Estava ávido por mais daquilo. E consegui.
Naquela mesma manhã, fui ao clube de treino, tentar começar minha carreira profissional. Como precisava de dinheiro, mantive-me como trabalhador doméstico por mais algum tempo. Tempo para que eu pudesse lutar no meu primeiro campeonato, alguns meses depois.
Eu me recordo de como foi a primeira vez no ringue. Depois de treinar com um saco de areia por dias seguidos, não achei que a emoção seria ficar entre aquelas cordas elásticas. Como me enganei. Na entrada do torneio do campeonato de novatos, eu senti tudo o que eu poderia. As luzes batiam forte nos meus olhos, enquanto eu entrava pelo corredor. Tocou alguma merda que o treinador tinha colocado na minha entrada. Não ouvi, sequer, um trecho da melodia. Em cima do ringue eu olhei meu adversário nos olhos. Olhos que, como os meus, estavam prontos para lutar. Olhos que carregavam o nobre preço de um punho cerrado. Eu gostei daquilo. Olhei para a platéia. Inúmeras pessoas que vigiavam os movimentos que ainda iriam acontecer. Pessoas que sabiam o valor de uma postura. Estava contando os segundos.
Na iminência da batalha, eu senti minha mãe na plateia. Ela, que me ensinou tudo, devia sentir um pouco de orgulho. Acho que ela sentia isso por ver seu filho não se subestimar, por vê-lo conquistar o seu respeito e valor. Mas acima de tudo, sei que nossas alegrias se fundiram, indiferentes às barreiras celestiais, pela simples chance de presenciar o nascimento de um, esforçado, pugilista.
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