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Mostrando postagens de maio, 2014

Guerra

           Escrevo banhado à lágrimas. Lágrimas que não são só minhas. Lágrimas que carregam o pesar dos meus amores. Lágrimas que, uma vez, foram os meus maiores sorrisos. Escrevo sem saber como. Com meus dedos tremendo. Meus olhos embaçados e meu coração queimando. Escrevo porque me desespero. Não há calma nem sossego nestas palavras. Medo, horror e... despedida. Lágrimas de fósforos que se acendem ao tocar minhas bochechas. Bochechas vermelhas pelo calor. Calor que me derrete e me destrói. E, em meio a todos os piques de 'adeus' que eu, em breve, darei, despejo prévias lágrimas pelo único que torna meus soluços mais úmidos que o mar.           Titubeando como se não fosse mais possível. O melhor amigo que se pode pensar. Substância que se evidencia na simples companhia. Não vou saber te dizer isso quando te ver, meu amigo de dois anos e meio. Meu melhor amigo de dois anos e meio. Você, parte do que compõe os meus, poucos, sorris...

Orgulho cego

           De longe, eu vi a fábrica. A estrada passava de terra à asfalto. E o guarda assobiava.             —   Alto lá! Quem vem? - a poeira parecia incrementar o astigmatismo do senhor guarda.             —   Francisco, pai de João, que aqui trabalha. Mostrei-lhe o crachá de meu filho, que o havia esquecido em casa.             — João? Desconheço - e depois de olhar para as identificações por alguns longos segundos -  Ah sim! O número 19200! Ele trabalha no setor de limpeza.            Aquele era meu primeiro dia visitando meu filho. Que orgulho! O chão estava recheado com o suor de trabalhadores satisfeitos com sua utilidade da sociedade. Eu via em seus rostos melados e sebosos o reflexo da vitória. Aquilo é que era vida. Submetidos ao simples ato de apertar um botão ou mexer uma alavanca, eles vivenciavam cada mo...

Por que?

          Quando digo às pessoas que estou escrevendo, elas, geralmente, não perguntam sobre o que escrevo. Não perguntam nada específico sobre quaisquer possibilidades da minha inserção para um papel. Ocorre, quase sempre, uma pergunta bem simples e, de certo modo, bem complexa: "Por que?"           Por que escrevo? Por que faço isso? Se o faço bem para mim ou se o faço mal para alguns, é-me indiferente. Então são pelas ideias? Ideias vêm e vão, ideias são fáceis de se pensar, difíceis de se entender. Já acho difícil pensar, então entender torna-se algo incompreensível às vezes, diga-se de passagem. Pois bem, por que escrevo? Me sinto bem, em parte, no processo. Isso varia, contudo. Escrevendo melancolias, fico apto; escrevendo alegrias, fico invejoso; escrevendo sobre amores, fico confuso; e escrevendo sobre medo, fico indifer...

Memórias de um pugilista

          Nunca fui bem em estudos. Esforço não me faltava; incessantes disputas com integrantes de minha antiga classe só resultavam em desapontamentos. Acho que depois de vivenciar tamanho nível de intelectualidade por parte das mentes que conhecia, tornou-se evidente que aquilo não era pra mim. E, com o tempo, isso foi mostrando-se mais claro: terminei o ensino médio e não sucedi em nenhum de meus concursos, conquanto tenha distendido até as últimas fibras do meu psicológico.           Filho de uma empregada e de um falecido pai, tentei usufruir do que me foi ensinado: trabalho doméstico. Cresci como um nômade, "morando" nas casas das pessoas na qual minha mãe trabalhava. Acho que isso facilitou meu entendimento em limpar, cozinhar, varrer, esfregar, desinfetar e educar os filhos dos patrões, visto que acompanhei o esforço de minha dona por muitos anos. Pude perceber, nesse meu emprego e no de minha mãe, o preconceito. Os integrantes...

Lençóis

          Aquele momento estava diferente. Nada fazia muito sentido. O tempo era-me irrelevante, ele sempre parecia o mesmo. De hora em hora, meu corpo doía. As costas estalavam, o pescoço sentia o torcicolo do cotidiano e os pés pareciam dormentes. Mas nada incomodava, nada tinha muita importância.          Estava em um lugar fechado, mas eu via o céu. Estava em terra, mas com os pés sob ondas. Pensava com razão, numa situação onde o ilógico imperava; asas dracônicas pendiam em minha coluna, enquanto o mundo se estirava sob meus olhos. Estranho. Nunca tinha visto nada daquilo tudo. Nunca havia podido interagir com tudo e tanto e, ainda assim, me sentir tão seguro, me sentir tão poderoso. Aquele mundo era meu. Os olhares desconfigurados dos seres à minha volta montavam-se ao meu comando. Sob minhas sombras dorsais, havia o meu exército. Meu. Eu tinha aquilo, era só meu. Criava-os e destruía-os. Juntei as peças que compunham os rostos d...

Aspereza

          Um menino come uma manga que ele pegou na sua rua. Sob aquela mangueira, na rua, ele já fez de tudo: jogar futebol com o asfalto marcado à poeira de tijolos, corrida de extremos inalcançáveis, descidas de bicicletas na ladeira, todos os piques - pega, esconde, bandeira, altinho, parede. Ele come uma manga bem doce, daquelas que ele sabe que vai ficar sem comer por meses, porque quase nunca aquela mangueira dava frutos. Ele saboreava devagar enquanto, ao lado de seus pés, havia um gafanhoto. Uma criatura descomunal, do nível Animal Planet - aqueles bichos que você acha que vieram da Austrália, para dizimar até os menores vestígios de vida - um ser do tamanho da palma de um homem. Era bem verde, com alguns toques laranjas e amarelos. Mesclava-se com a grama da calçada, frente ao muro que tinha seu pedaço destruído pelo crescimento da mangueira. O menino larga a manga. Sua fome pelo perigo é maior que qualquer dor no estômago. "Mas e se ele me morder?"; "...

Dia das mães

          Hoje foi dia das mães. Liguei para minha querida, desejei-a um ótimo dia e disse que a amava, como qualquer bom filho. Até aí sigo um padrão que fez-se rotina nos meus dezessete anos de vida. Vou tentar, agora, inovar: sabe aqueles flashes que nós temos das nossas primeiras memórias? Vou usá-los nessa mini-história, e tentar desenvolver junto às afeições de minha mãe.           Minha lembrança de largada, começa em uma escada. Na escada da minha casa, bem no topo. Eu comecei a pensar naquela momento, ou pelo menos comecei a me dar conta de que pensava; notei que estava vestindo uma blusa do Brasil, uma manga amarela e outra verde, com uma bola de futebol no meio. No meio do ápice das minhas reflexões, me dei conta de que pensar e descer a escada ao mesmo tempo era muito complicado e, assim, caí. Nada sério, afinal, aqui estou.           Recordo que o rosto da minha mãe sempre me fora familiar. Mesmo ...

Sentidos explosivos

          Olá. Você já parou pra pensar no quão normal são seus cinco sentidos? Bom, normais até um padrão. Esses dias, li em um texto de exercícios falando sobre alguns dos ofícios do que sentimos fisicamente. Ainda nele, me deparei com uma coisa incrível e estúpida: nós percebemos nossas regularidades, apenas quando elas nos fazem falta. Isto é, só lembramos de ver quando ficamos cegos, só lembramos do conforto quando sentimos a dor, só lembramos de falar quando nos silenciamos.            Essas ideias foram minhas conclusões com base no texto. Contudo, notei que existem algumas exceções também, no campo dos sentidos. No meu primeiro ano do ensino médio, conheci alguns rostos novos na minha nova escola. Dentre eles, a Thata. Thata era, e sempre foi, mais alta que eu - sou um pouco abaixo da média masculina, e ela um pouco acima da feminina - com seus cabelos castanhos, um palmo acima das cinturas, ela foi importante pra mim, de ...

Piloto básico

          Todos os dias eu acordo, vou para o curso em que estudo, na esperança de passar para uma faculdade, como o resto dos estudantes que conheço, e sigo uma rotina padrão. Não é nada divertido a ponto de me alegrar com os elementos dessa rotina. É estranho. Estranho, porque eu preciso de um futuro, como me ensinam, mas não curto tanto essa ideia atual. Deixe eu resumir: sou Nuno, um mero estudante, e encontro desgosto em viver como vivo. Uma crise adolescente? Talvez. Não ligo.           Por favor, não se magoe com minha melancolia. Não sou depressivo nem triste. Não me vejo feliz também. Eu apenas sinto. Vivo num ato de dificuldade de expressar quaisquer sentimentos em palavras. Para os leigos, esse ato é a alexitimia. Sob pressões sentimentais, não consigo me expressar sem antes ficar gago, tremendo, vermelho e com os olhos em lágrimas.           Por que isso tudo? Eu, na minha ignorância, não posso dar ...