Lençóis
Aquele momento estava diferente. Nada fazia muito sentido. O tempo era-me irrelevante, ele sempre parecia o mesmo. De hora em hora, meu corpo doía. As costas estalavam, o pescoço sentia o torcicolo do cotidiano e os pés pareciam dormentes. Mas nada incomodava, nada tinha muita importância.
Estava em um lugar fechado, mas eu via o céu. Estava em terra, mas com os pés sob ondas. Pensava com razão, numa situação onde o ilógico imperava; asas dracônicas pendiam em minha coluna, enquanto o mundo se estirava sob meus olhos. Estranho. Nunca tinha visto nada daquilo tudo. Nunca havia podido interagir com tudo e tanto e, ainda assim, me sentir tão seguro, me sentir tão poderoso. Aquele mundo era meu. Os olhares desconfigurados dos seres à minha volta montavam-se ao meu comando. Sob minhas sombras dorsais, havia o meu exército. Meu. Eu tinha aquilo, era só meu. Criava-os e destruía-os. Juntei as peças que compunham os rostos de notórios ícones históricos. Conversei com os primeiros gregos, batalhei com rebeldes bárbaros do meu reino, enquanto impedia o mundo de invasões de seres exteriores ao meu controle. Seres barulhentos, seres que faziam meu corpo arder, de ponta à ponta. Mas eles não duravam. Acho que esse é o preço de se governar tudo. Esse é o preço do poder. O custo do mundo. Do mundo que era meu.
Mantive a paz, os habitantes se rendiam às minhas capacidades. Sobre quaisquer normas, minhas influências domavam os prazeres. Comandava todos os quatro cantos de meu reinado, unia os laços de tempo que residiam entre seu espaço, que era infinito. Optei pelas maiores amostras culturais para compor as camadas de minha civilização: alunos de Gandhi, estrategistas de Napoleão, ouvintes de Mozart e leitores de Sheakspeare; e, assim, o meu povo estava pronto para quaisquer circunstâncias. O meu povo, pelo menos, estava. Já eu... Eu achava que estava. Mas não. Seres ainda mantinham a incessante ondas de seus sons guturais. Eu conhecia aqueles sons. Sabia que já os tinha ouvido infinitas vezes. Mas de onde? De onde viriam tão familiares ruídos insuportáveis? Ruídos que mortificariam minhas vontades de viver. Ruídos que substituiriam meus júbilos de dia a dia. Ruídos que estavam tirando a paz de meu reino. Basta!
Juntei minhas melhores tropas e viajei para fora de meu território. Começamos a caminhar e ver o que formava aquela realidade descomunal: criaturas deformadas flutuavam ao lado de estrelas, cavernas que emanavam mais luz que o próprio sol, mares cujas águas sobrepunham o ar. Não tive medo. Tive ânsia. Queria aquele lugar. O que eram conceitos de egoísmo e arrogância para um governante de um território, para um rei de um mundo, para um deus de um universo inteiro... Contudo, meu pensamento se obstruía. Agora as dores voltaram. Os sons tornavam-se contínuos e minha fúria tomou proporções externas. Olhei para trás e vi: Minhas terras estavam em chamas. O fogo ressoava ao som dos ruídos fundidos em melodias de rancor e inexistência. O mundo entrou em colapso e eu não tinha mais nenhum controle. O que estava acontecendo? Minha coroa reduziu-se a pó, minhas asas fundiam-se ao torcicolo, meus braços latejavam sob minhas costelas, meus pés em nó sentiam o formigar do fim. Do fim de tudo o que eu havia conquistado. De tudo o que eu havia criado. E os sons continuavam a destruir tudo, entrei em pânico, queria acabar com aquilo, queria voltar, não tinha mais controle, não era mais um rei, era só um barulho, sujo e alto, era só...
— ...
Meus dentes estavam colando. Minha boca úmida, enquanto eu ainda tentava entender o que havia acontecido com meu prestígio de monarca. Ele tocou pela quinta vez. Um alarme. Era só um alarme.
Sem vontade ou forças, aproveitei meu tempo mínimo para lembrar. Sabia que iria esquecer de tudo. Sabia que já tive milhões de reinos, de regozijos e de poderes. Entristeci com meu despertar. O sonho inteiro se foi, mas a dor de meu mau dormir ainda se manifestava de modo igual, senão mais intenso. Abri a palma de minha mão sobre a cama. Fixei o olhar para ela. Minha mão, parte de mim, com suas pequenas cicatrizes de infância, com suas dobras e ramificações e tonalidades e capilares e sinais que se estendiam por todo conceito de... mim. Olhei-a por mais quinze segundos, porque eu sabia. Eu sabia que em quinze segundos tudo aquilo iria acabar. As dores iriam se manter, o pesar do milionésimo esquecimento iria me assombrar, mas toda uma história iria ficar para trás. Toda uma história que, sob as asas de minha inconsciência, ocupou só mais um lugar no cemitério dos meus lençóis.
Estava em um lugar fechado, mas eu via o céu. Estava em terra, mas com os pés sob ondas. Pensava com razão, numa situação onde o ilógico imperava; asas dracônicas pendiam em minha coluna, enquanto o mundo se estirava sob meus olhos. Estranho. Nunca tinha visto nada daquilo tudo. Nunca havia podido interagir com tudo e tanto e, ainda assim, me sentir tão seguro, me sentir tão poderoso. Aquele mundo era meu. Os olhares desconfigurados dos seres à minha volta montavam-se ao meu comando. Sob minhas sombras dorsais, havia o meu exército. Meu. Eu tinha aquilo, era só meu. Criava-os e destruía-os. Juntei as peças que compunham os rostos de notórios ícones históricos. Conversei com os primeiros gregos, batalhei com rebeldes bárbaros do meu reino, enquanto impedia o mundo de invasões de seres exteriores ao meu controle. Seres barulhentos, seres que faziam meu corpo arder, de ponta à ponta. Mas eles não duravam. Acho que esse é o preço de se governar tudo. Esse é o preço do poder. O custo do mundo. Do mundo que era meu.
Mantive a paz, os habitantes se rendiam às minhas capacidades. Sobre quaisquer normas, minhas influências domavam os prazeres. Comandava todos os quatro cantos de meu reinado, unia os laços de tempo que residiam entre seu espaço, que era infinito. Optei pelas maiores amostras culturais para compor as camadas de minha civilização: alunos de Gandhi, estrategistas de Napoleão, ouvintes de Mozart e leitores de Sheakspeare; e, assim, o meu povo estava pronto para quaisquer circunstâncias. O meu povo, pelo menos, estava. Já eu... Eu achava que estava. Mas não. Seres ainda mantinham a incessante ondas de seus sons guturais. Eu conhecia aqueles sons. Sabia que já os tinha ouvido infinitas vezes. Mas de onde? De onde viriam tão familiares ruídos insuportáveis? Ruídos que mortificariam minhas vontades de viver. Ruídos que substituiriam meus júbilos de dia a dia. Ruídos que estavam tirando a paz de meu reino. Basta!
Juntei minhas melhores tropas e viajei para fora de meu território. Começamos a caminhar e ver o que formava aquela realidade descomunal: criaturas deformadas flutuavam ao lado de estrelas, cavernas que emanavam mais luz que o próprio sol, mares cujas águas sobrepunham o ar. Não tive medo. Tive ânsia. Queria aquele lugar. O que eram conceitos de egoísmo e arrogância para um governante de um território, para um rei de um mundo, para um deus de um universo inteiro... Contudo, meu pensamento se obstruía. Agora as dores voltaram. Os sons tornavam-se contínuos e minha fúria tomou proporções externas. Olhei para trás e vi: Minhas terras estavam em chamas. O fogo ressoava ao som dos ruídos fundidos em melodias de rancor e inexistência. O mundo entrou em colapso e eu não tinha mais nenhum controle. O que estava acontecendo? Minha coroa reduziu-se a pó, minhas asas fundiam-se ao torcicolo, meus braços latejavam sob minhas costelas, meus pés em nó sentiam o formigar do fim. Do fim de tudo o que eu havia conquistado. De tudo o que eu havia criado. E os sons continuavam a destruir tudo, entrei em pânico, queria acabar com aquilo, queria voltar, não tinha mais controle, não era mais um rei, era só um barulho, sujo e alto, era só...
— ...
Meus dentes estavam colando. Minha boca úmida, enquanto eu ainda tentava entender o que havia acontecido com meu prestígio de monarca. Ele tocou pela quinta vez. Um alarme. Era só um alarme.
Sem vontade ou forças, aproveitei meu tempo mínimo para lembrar. Sabia que iria esquecer de tudo. Sabia que já tive milhões de reinos, de regozijos e de poderes. Entristeci com meu despertar. O sonho inteiro se foi, mas a dor de meu mau dormir ainda se manifestava de modo igual, senão mais intenso. Abri a palma de minha mão sobre a cama. Fixei o olhar para ela. Minha mão, parte de mim, com suas pequenas cicatrizes de infância, com suas dobras e ramificações e tonalidades e capilares e sinais que se estendiam por todo conceito de... mim. Olhei-a por mais quinze segundos, porque eu sabia. Eu sabia que em quinze segundos tudo aquilo iria acabar. As dores iriam se manter, o pesar do milionésimo esquecimento iria me assombrar, mas toda uma história iria ficar para trás. Toda uma história que, sob as asas de minha inconsciência, ocupou só mais um lugar no cemitério dos meus lençóis.
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