Dia das mães

          Hoje foi dia das mães. Liguei para minha querida, desejei-a um ótimo dia e disse que a amava, como qualquer bom filho. Até aí sigo um padrão que fez-se rotina nos meus dezessete anos de vida. Vou tentar, agora, inovar: sabe aqueles flashes que nós temos das nossas primeiras memórias? Vou usá-los nessa mini-história, e tentar desenvolver junto às afeições de minha mãe.
          Minha lembrança de largada, começa em uma escada. Na escada da minha casa, bem no topo. Eu comecei a pensar naquela momento, ou pelo menos comecei a me dar conta de que pensava; notei que estava vestindo uma blusa do Brasil, uma manga amarela e outra verde, com uma bola de futebol no meio. No meio do ápice das minhas reflexões, me dei conta de que pensar e descer a escada ao mesmo tempo era muito complicado e, assim, caí. Nada sério, afinal, aqui estou.
          Recordo que o rosto da minha mãe sempre me fora familiar. Mesmo não lembrando de nada, senão da minha queda nas escada - eu lembro de dar umas belas voltas no ar, um garoto atleta - eu simplesmente sabia quem era a minha mãe, mesmo sem saber como. Você deve estar pensando que é óbvio, ela é minha mãe oras! Mas não. Nos meus primeiros momentos de contato psicológico com o mundo, eu lembrava que tinha um pai, eu lembrava de sua voz, de seu toque carinhoso, de me levantar na cama e fazer 'aviãozinho', mas na hora em que parei pra pensar no rosto dele pela primeiríssima vez, eu não sabia em que pensar. Nessa hora eu estava com minha mãe, a caminho de sua antiga loja, e lá, posso dizer que finalmente conheci o meu velho.
          Um dos meus próximos flashes deu-se no carro do meu pai. Lembro que tinha três anos, porque eu ainda acha engraçado fazer o símbolo de "três aninhos" com o dedo. Comentários à parte. Naquele dia estava na carona, usando o cinto de segurança, e meu querido homem me lecionou, na primeira de muitíssimas vezes, sobre o perigo no trânsito. Como eu conseguiria explicar para meu preocupado pai que eu não entendi porra nenhuma e só me sentia feliz por estar no banco da frente? Ainda assim, seus ensinamentos foram, e são válidos sempre.
          Blackout. Meses depois minha irmã sentou comigo na sala e proferiu as primeiras das palavras que algum dia iriam afetar meu ser pedagógico: "vem cá, querido, vou te ensinar a contar". Cara, o que era aquilo. Pra que aquilo tudo. Eu lembro só do número dois. Como foi complicado na hora desenhá-lo. Acho que é porque foi logo depois do um, que é o mais tranquilo. Aí a minha irreverente companheira me deu uma caneta - como se um garoto levado manejasse tal instrumento no cotidiano - e falou "é só dar duas voltinhas assim ó". Taí, traumatizei, eu lembro do meu primeiro "2".
          Agora, no que tange às minhas memórias com meu irmão, ele era mais levado que eu em sua pós adolescência. Meu primeiro flash com meu irmão, coincidiu com minha introdução com o mundo da 'mulher pelada'. Eu tinha ainda cinco ou seis anos quando ele me mostrou uma foto escrito "feliz 2002" em que os zeros, coincidentemente, eram peitos. Não de homens. Pensando agora, foi engraçado, porque tudo aquilo era maior mito pra mim. Eu lembro que no meu envelhecer eu fazia questão de acompanhar aquelas merdas, não por prazer do ato, mas, simplesmente, porque a rebeldia do assistir me entretinha. Ah, como o mini Nuno tinha seus momentos caóticos.
          A primeira memória de minha mãe, no entanto, foi a que mais me mostrou, o que me ensinou, pela primeira vez, a ser o Nuno que eu nasci para ser. A primeira memória de minha mãe trouxe toda uma onda de catarse, que pensar naquele momento me dá uma emoção incomensurável. Peço ao leitor que se coloque no meu lugar. Eu fui conhecer a minha roça. Sinto que já tinha estado lá, nos meus momentos de blackout. Era gostoso, porque eu estava em cima de um cavalo, e fugir dos asfaltos e construções parecia tão bom. Ouvi pela primeira vez o termo "higiene mental", alguma coisa em relação ao contato com a natureza. Lembro que assenti e super me orgulhei em saber daquilo. Sobre o cavalo, minha mãe puxava suas rédeas e dizia-me para fazer aqueles sons de beijo para fazê-lo andar e se mover. Não consegui e me magoei, ele simplesmente não me ouvia. Por fazer parte da geração meio tec, achei que o infeliz estivesse quebrado. Mas não. Minha mãe me desceu no chão,  pegou um galho qualquer e subiu no cavalo. Olhou para trás como que em um olhar destemido. "Observe". E ela começou a cavalgar. C-a-v-a-l-g-a-r. Como aquilo me hipnotizou. Não o ato, a minha mãe. Para cada 'tu rum ta' que o animal fazia, eu via, na mulher, o sol refletir nos anéis de sua mão direita levantada ao ar com um galho que balançava. Conheci o subjetivo. Aquele aperto no coração, que se tem quando se acorda num dia frio, ou quando o personagem legal de algum filme bom morre, ou quando algum livro bom acaba. Eu senti aquilo. Pela primeira vez. Um garoto que mal sabia falar ficou, inarravelmente, sem palavras. Ele foi ao céu e voltou, ele conheceu os espirais das galáxias. E tudo isso por causa de uma mulher que cavalgava melhor que qualquer um. Uma mulher que cavalgava melhor do que um padre rezava, ou do que um navegador velejava, ou do que um pugilista lutava, ou do que um mortal vivia.
          No meio de tantos 'primeiros' e tantos 'flashes', eu posso só dizer que nesse dia das mães eu celebro meus momentos fazendo o que eu faço de melhor. Eu apenas sinto. Por mim, pelo mundo e pela minha mãe.
         Um feliz dia das mães!

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gota