Sozinho no banco de trás

          O pai dirigindo para que nós vejamos a mãe. São nove horas da manhã e tínhamos saído às oito. Não estava ainda quente, dava pra sentir o ventinho que entrava das janelas da frente - porque ele não me deixava abrir as de trás - batendo no meu rosto. Vento, este, que aumentava, toda hora que o velho ultrapassava alguém. Era engraçado e gostoso; eu abria a janela, mesmo sem ele deixar, e colocava a mão lá fora; só a mão. Daí eu a fechava, e o vento nada fazia. Depois eu a abria, e ele a empurrava para trás bem forte. Nessa, eu ficava brincando e meu pai chamava-me a atenção, calmamente, o que é de seu feitio: "Fecha o vidro, filho". E eu fechava.
          Não tinha nem a mais vaga ideia do que fazia eu no carro. Não me importava, o mundo ainda era tão simplório, tão bonito, tão novo. E dava para vê-lo todo da janela. Dava pra ver os morros pequenos e todos verdes, os mais altos e só com pedras no topo, e, quando eu estava nos planaltos, dava pra ver toda aquela terra estirada lá embaixo; eu ficava abrindo o index e o polegar, na tentativa de fazer aquele mundo caber na palma da minha mão.
          Nossos vidros não eram escuros e, então, quando começou a entrar o calor do sol, incomodou muito. O pai, sábio como era, trazia consigo uma toalha de banho. Deu-a para mim, para que a usasse de cortina. Abri a janela, prendi os dois lados da toalha nos dois cantos do vidro e, assim, tinha eu quase que uma fortaleza. Mas a teimosia e a bipolaridade infantil falavam mais alto: ficava entretido, mesmo com todo o esquentar daquele céu, em esgueirar-me por debaixo da "cortina", não deixando nem um pedaço daquele lugar escapar à minha vista.
          Como aquilo me impressionava! Ficava hipnotizado ao delirar observando a passagem daquele verde. Tentava, a todo custo, contar cada estaca que formavam as cercas daqueles Campos Elísios. Se olhasse bem, minha imaginação desenharia Hades em seu trono, no qual os cantos da veste que, antes, tanto queimavam em seu fogo negro, ocupavam-se agora em desvanecer os vestígios de existência das almas em forma de serenos prados. Fugindo do campo, meus olhos viam o céu; as grandes e sozinhas nuvens nada tinham de alegria; ao se unirem, contudo, esse caráter disforme de cada uma delas transformava-se - não, transfigurava-se - em grandes ceitas de contentamento, como se cada pedacinho de água tivesse ido aos céus somente para se encontrar.
          E isso tudo enquanto eu moldava minha visão de mundo em lugar algum, senão sozinho no banco de trás.

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