Um de vários

          Fui assaltado.
          Depois de um dia de, suposto, trabalho, descansei pela minha tarde seca e ainda mais esgotante que o começo daquela manhã. Nesta, onde o céu parecia amarelo, como uma folha suja de café. Nesta, mesmo, eu levantei; ou, a princípio, tentei levantar. O despertador tocou mais forte que o normal nos meus sonhos e, assim, estremeci. Tamanha sensação de agonia; grande era a dor em minha cabeça e o brandar dos estalos em minha coluna. Mas consenti. Era, enfim, final dos meus períodos de esforço e, portanto, haveria eu de me desgastar com apenas uma manhã? Certamente não! Assim sendo, tratei de me aprontar.
          Pouparei qualquer leitor dos detalhes da manhã como um inteiro, pelo senso de rotina que foi cada minuto, nada digno de estar aqui, neste contexto. Voltemos.
          Cheguei à minha casa, e pus-me a arrumar as malas: preparava-me para uma viagem. Enchi os vazios das mochilas, fiz minhas ligações em prol da organização, preparei o recinto para o silêncio; tudo estava organizado e eu, tentando controlar o que estivesse sob meu controle, não pude deixar de notar que só viajaria em vinte horas. Um homem preparado.
          Preparado, de fato, antes que indaguem tamanho adiantamento. Havia combinado de sair, naquela noite, com alguns amigos. Uma leve ideia de despedida, um jeito mais satisfatório de se divertir para ocultar o desgosto da ausência. Pois bem, fui. peguei os constituintes de minha vestimenta - os que ainda não haviam sido postos em malas - e fechei, pela segunda vez no dia, o meu ciclo de aprontamento. Saindo, peguei chaves, carteira, celular e, como qualquer bom falante, carona.
          Oculto, também, os pormenores que presenciei em minha saída. Não o faço por ousadia, mas por irrelevância; pouco do que vi vale a menção; e desse mesmo pouco, não quero me dar o trabalho de lembrar.
          Note, também e por favor, que não sinto ódio ou raiva. Estou tentando, apenas, pôr em ênfase a, quase que total, imparcialidade que vivi meu dia, a fim de que isso não possua a tendência de pender para nenhum dos lados - inconformação ou piedade - no acontecimento da madrugada.
E não pendeu.
          Cansei-me do local da alegria coletiva à qual fui levado. Sorte a minha que meu cansaço coincidiu com o fim da hora de trabalho do local. E, não perdendo a oportunidade, consegui a mesma carona. No trajeto até minha casa, só posso lembrar que não pensei em realidade, mas na realidade não posso dizer em que pensei. Grande é minha capacidade de se desligar. Se isso é bem ou mal, não cabe a este momento a discussão. Avancemos.
          Foi-me feita a pergunta "Onde quer descer?", e meu dedos já pulavam apontando para a esquina à frente. Despedi-me, agradeci e saí do carro. Vale ressaltar que não moro na esquina, mas a meio quarteirão dela. E, desse modo, comecei a andar. Olhos cansados, desde o começo de um dia cansado, à organização de uma casa cansada, e ao fim de uma noite que, para minha surpresa, nada tinha de ânsia. Continuei nesse ritmo e, a vinte metros de onde moro, vi um homem de bicicleta. Não negaremos o óbvio: ele me assaltou. 
          Faço mais uma pausa para pedir aos transeuntes internautas pseudo-facistas para que não percam tempo culpando-me pelo assalto, uma vez que estava andando tão tarde sozinho na rua. A culpa do crime não é da vítima. É-me surpreendente o quão difícil isso é de se assimilar. Contudo, de quem é a culpa? Afinal, eu era o inocente. Como fechar o ciclo? Vejamos.
          Tornou-se evidente que aquilo seria um assalto, antes mesmo da aproximação. Um interesse ávido apresentou-se no olhar do magro homem. E, nisso, ele virou a bicicleta em minha direção. Poderia, eu, correr? Certamente. Gritar? Sem dúvida. Adentrar no prédio vizinho? Poderia, mas não era tão recomendado. E, mesmo com tantas opções, eu fiz a menos cansativa de todas elas: esperar.
           Não corre. Não grita. Me dá o celular.
          Sua mão tocou na arma, presa entre a bermuda e a cintura, rente ao lado direito do corpo. Eu estava na esquerda. Toda sua vestimenta era bege, com manchas claras, por desgaste, e manchas escuras, por sujeita. Apenas uma camisa e chinelos numa noite bem fria. Eu estava usando já o necessário para beirar o calor, enquanto aquele homem, de tez clara, face robusta e cabelo mal cortado, montado na sua velha bicicleta, estava com o queixo a tremer. Tudo isso - minha irrelevância é que pensava - por um celular de quatro anos que, pela idade, deduz-se que não tem muito sucesso. Um celular que, não bastando ser velho, tinha botões frouxos, funcionava em momentos de sua vontade e, pelo descaso do dono, apresentava marcas de poeira e manchas de corretivo. Fui pegá-lo no bolso.
           Rápido.
          Não senti medo. Não senti pena. Não senti. Só observei. Nada adiantava de usar força. Por mais que as chances de sucesso fossem notáveis, não me importava; a fadiga falava mais alto. Quando o silêncio voltou a reinar, entreguei-o e vi-o partir. Andei os vinte metros que faltavam, coloquei a chave na porta e olhei para o ladrão. O reflexo de seus olhos nada diziam. Não eram um adeus ou um perdão. Eram só um certificado. "Não tente nada", diziam as brilhantes íris do assaltante que não mais roubava. Tão imerso no crime, que desprendeu a olhar como um pequeno homem magro.
          Aprontei-me, pela terceira vez, fechando o paradigma social diário, e deitei sobre a cama. O que aquele homem iria fazer? Talvez ver a inutilidade do aparelho e destruí-lo. Talvez vender para algum comprador, também criminoso, e conseguir algum dinheiro para a família, ou para as drogas. Talvez assaltar de novo, a fim de encontrar alguém com um celular melhor que o meu e, assim, provar um pouco da criminalidade que ele mesmo, talvez, não sabe por que pratica. 
          Naquelas reflexões, dormi. Não mais o cansaço me oprimia. E, depois de acordado, não voltei a imergir nestes pensamentos até agora. Sem tamanhas conclusões - e coloco ênfase na minha carência de um ponto de vista como um todo, a fim de silenciar os radicalistas que aqui leem -, ouso parafrasear o mínimo que posso de Victor Hugo; enquanto houver homens como aquele, este texto não há de ser um total inútil. Pensemos.


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