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Mostrando postagens de junho, 2014

Império do silêncio

          Ele tinha saído de casa para vê-la. Foi com uma barra de chocolate na mão, com todos os agasalhos que, no momento, tinha posse; pegou as chaves, já tremendo. Nem havia tocado a rua e já não sabia o que falar; pensava e pensava e tudo só ficava mais confuso. Como podia esperar alguma coisa tão cedo? Ele não sabia; tentava organizar inúmeras linhas das possíveis trajetórias que a conversa, quem sabe, viria a tomar. De nada adiantaria, tolo. Ligou para ela: "Posso passar aí?". Sorriu. O sabor do consentimento é mais virtuoso que as alegrias da riqueza. Sentiu um leve pulsar percorrer, desde a parte de cima do pescoço, até ir se dissipando pelas pernas. E, assim, ele foi.           Ela passara a manhã deitada sobre a cama com uns pijamas coloridos e felizes demais para aquela solidão. Ficava com os olhos na televisão, mas com a cabeça no peito. Não sabia o que sentia, ou sequer sentia alguma coisa; sabia só que era confuso. Sabia ...

Sozinho no banco de trás

          O pai dirigindo para que nós vejamos a mãe. São nove horas da manhã e tínhamos saído às oito. Não estava ainda quente, dava pra sentir o ventinho que entrava das janelas da frente - porque ele não me deixava abrir as de trás - batendo no meu rosto. Vento, este, que aumentava, toda hora que o velho ultrapassava alguém. Era engraçado e gostoso; eu abria a janela, mesmo sem ele deixar, e colocava a mão lá fora; só a mão. Daí eu a fechava, e o vento nada fazia. Depois eu a abria, e ele a empurrava para trás bem forte. Nessa, eu ficava brincando e meu pai chamava-me a atenção, calmamente, o que é de seu feitio: "Fecha o vidro, filho". E eu fechava.           Não tinha nem a mais vaga ideia do que fazia eu no carro. Não me importava, o mundo ainda era tão simplório, tão bonito, tão novo. E dava para vê-lo todo da janela. Dava pra ver os morros pequenos e todos verdes, os mais altos e só com pedras no topo, e, quando eu estava nos p...

Um de vários

          Fui assaltado.           Depois de um dia de, suposto, trabalho, descansei pela minha tarde seca e ainda mais esgotante que o começo daquela manhã. Nesta, onde o céu parecia amarelo, como uma folha suja de café. Nesta, mesmo, eu levantei; ou, a princípio, tentei levantar. O despertador tocou mais forte que o normal nos meus sonhos e, assim, estremeci. Tamanha sensação de agonia; grande era a dor em minha cabeça e o brandar dos estalos em minha coluna. Mas consenti. Era, enfim, final dos meus períodos de esforço e, portanto, haveria eu de me desgastar com apenas uma manhã? Certamente não! Assim sendo, tratei de me aprontar.           Pouparei qualquer leitor dos detalhes da manhã como um inteiro, pelo senso de rotina que foi cada minuto, nada digno de estar aqui, neste contexto. Voltemos.           Cheguei à minha casa, e pus-me a arrumar as malas: preparava-me para uma via...

           —  A gente vai lá mesmo?            —  Sim.            —  Mas e o cachorro? Ele pode morder a gente.            —  Ele não vai morder...            —  Como você sabe?            —  Eu não sei! Vem logo!            —  Mas eu não quero ir, o muro é alto. Se ele vier correndo eu vou ser devorado!            —  É culpa sua, menino! Ninguém mandou tentar dar uma de forte... Quer saber, dane-se. Você tá sozinho nessa merda. Vou esperar com os garotos.            —  Não! Espera! Volta! Porra...           Malditos. São todos malditos. Desgraçados, infelizes, babacas. Mas eu vou lá. Vou pegar e vou roubar pra mim. Esses malditos não vão me v...

Perda

          O vento está muito forte aqui. O vento e a chuva. Os vestígios de sol que passam pelas nuvens do fim de tarde são os únicos elementos que me esquentam. Os únicos de todo o lugar, de todo o mundo. Esse, mesmo tão grande, parece-me tão pequeno daqui. Deste banco de madeira com a marca das minhas unhas, com esta terra no topo dos meus sapatos e com todo este oceano azul-escuro que, mesmo tão cheio d'água, está menos molhado que meus olhos; e, ainda tão cheio de vida, aparenta estar tão só como eu.           Levanto-me, no topo deste penhasco.             —   Por... - as palavras não vêm.           Ainda de pé, abro os braços. Essa chuva que me empurra para a terra. Essas gotas de choro que vêm do céu para me salvar. Como isso pôde acontecer? Meus soluços não se manifestam. A garganta arde de prévios gemidos. Dói, é demais. E, nisso, o mar sacode; ele em pesadelos, igua...

Amedrontado

          Nossos pés entrelaçados. Você a dormir bem à minha frente. Não estamos cobertos neste frio, pelo calor que nossos corpos emanam. Eu sinto seu nariz na ponta do meu, o seu cabelo se desfazendo sobre os meus dedos e as covas de suas maçãs em ênfase pelos meus beijos que te fazem sorrir em seu sono. Não vou dormir esta noite. Eu sei. Eu sei que vou querer ficar te olhando. Vou querer dançar com minhas mãos pelas suas curvas, e ver seu corpo balançar enquanto respira.           Mantenho as lembranças da noite que, para você, já terminou. A madrugada começou em calafrios, passou pelos seus calores e atritos sebosos, terminando na satisfação dos júbilos quentes como os meus medos. Seus beijos que me umedecem, começam pelos meus pés, sobem por entre minhas pernas, pelo peito até o pescoço. Caminho em seu decote. Minha face áspera toca em seus seios enquanto os lábios envolvem seus ápices. Dançamos e sacudimos. Não somos nós dois, nem...