Império do silêncio

          Ele tinha saído de casa para vê-la. Foi com uma barra de chocolate na mão, com todos os agasalhos que, no momento, tinha posse; pegou as chaves, já tremendo. Nem havia tocado a rua e já não sabia o que falar; pensava e pensava e tudo só ficava mais confuso. Como podia esperar alguma coisa tão cedo? Ele não sabia; tentava organizar inúmeras linhas das possíveis trajetórias que a conversa, quem sabe, viria a tomar. De nada adiantaria, tolo. Ligou para ela: "Posso passar aí?". Sorriu. O sabor do consentimento é mais virtuoso que as alegrias da riqueza. Sentiu um leve pulsar percorrer, desde a parte de cima do pescoço, até ir se dissipando pelas pernas. E, assim, ele foi.
          Ela passara a manhã deitada sobre a cama com uns pijamas coloridos e felizes demais para aquela solidão. Ficava com os olhos na televisão, mas com a cabeça no peito. Não sabia o que sentia, ou sequer sentia alguma coisa; sabia só que era confuso. Sabia que estava descansando e sem se mover, mas o coração batia como um cavalo de corrida; olhando apresentadores aleatórios de programas aleatórios, seus dedos agarravam-se ao lençol, como se ele carregasse alguma lembrança de uma noite que já deixou de ser. Suas narinas começaram a arder e queimar pela voracidade do respirar. E o calor se espalhava pelo seu corpo, até a ponta de seus membros; daí passava para a cama e tudo ficava mais quente; depois aquelas chamas ainda não acesas já estavam no chão e subiam pelas paredes. E ela, imersa na ponta de cada dedo que tocava a colcha, observava o quão fogoso o lugar se tornava, em harmonia com sua saudade. De repente as chamas caem sobre a mesa, como se atraídas por algum ruído: o celular estava tocando. Os quentes lençóis de agora pouco só puderam se contentar com o proferimento de um "Sim" mal compreendido por eles. E, assim, ela respirou.
          Enquanto ela se arrumava, ele dirigia. Um procurava um vestido, o outro suava no trânsito. Um olhava o espelho, em busca de alguma esperança para o conforto de um encontro que, até então, foi só silêncio; o outro deitava a cabeça aos ombros observando a própria mão no volante; uma mão grande como ele e que, como ele, não era nada perto daquela febre sem nome. Ela voltava a se agitar, como quem, de repente, nada enxerga. Ele perdeu a razão e tornou-se ainda mais impassível no momento que a barra de chocolate, ainda não aberta, lhe escapou dos dedos até a rua. Tanto embaraço tinha sua beleza, mas... Suas cabeças ansiavam com a dor. Seus olhos avermelhavam-se. Suas veias sobressiam. O gosto da dependência estava enclausurando-se nos dois. Quem nunca?
          Ele chegou, ela abriu a porta e, então, olhavam-se.
          Olhavam e olhavam e olhavam. Ela num vestidinho azul pequeno como seu corpinho. Ele com uma blusa de manga comprida, também azul. Navegavam naqueles olhares que estavam ávidos de contemplação. Mergulhos nas consciências em busca de conexão. Suas bocas, de segundo em segundo, entreabriam-se, mas nada havia para sair. Tamanha perplexidade! E isso depois de uma alegria tão quente e tão serena que cada um julgava, para o outro, ser momentânea. No entanto, aí estavam. Os dedos dela de novo tremiam e se agarravam às dobras do vestido; dançava com o observar sobre o que via; sentia o carinho e afeto transbordando-lhe pela insegurança daqueles lábios separados. O que era a alegria dela! Agora sentia um pulsar pesado pressionando-a cada vez mais dentro de si. Parava de tremer e começava a sorrir. Ele que, ingênuo, julgava entender tudo destes momentos, agora corava-se. Olhou para aquele miúdo sorriso e tentava responder, mas palavras não lhe vinham à boca. Nem mesmo o gaguejar apresentava coragem de subir. Só aparecia a brisa. Esta, tão quente por sair de dentro daquele corpo que derretia-se, em meio a um, tão frio, ar que rodeava. Agora ele estava sentindo o calor dela, que descia dos dedos, ao vestido, às pernas, ao tapete, ao chão e que, então, subia-lhe os tênis, as meias e os pés até o entrar em seu corpo. Agora ele queimava como ela. E como ela, sorria.
           Quer...? - os dois perguntaram.
           Sim! - os dois responderam.
          E assim, no morto embaraço inaudito, os dois foram fazer o nada deles. Juntos.

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