Corpos

          Numa manhã de um sábado, eu e meu amor dormíamos calorosamente em minha cama.
          Um raio de sol forte entrou pelas cortinas e nós dois, repentinamente, trocamos de consciência. Nada pude fazer, pois o corpo de minha linda ainda repousava, e, por isso, eu estava em sonhos. Mas meu corpo já estava despertado e, com ele, a mente dela.
          Ela me viu pelos meus olhos. Eu pude ouvir seus pensamentos, mesmo não estando em minha mente; e pude sentir, naquela hora, tudo o que ela sentia.
          Estava surpresa por não entender por que seus cabelos pareciam mais loiros. Estava surpresa por ver que suas as mãos brilhavam de tão brancas. Já tinha visto tantas vezes o próprio corpo e agora, tolamente, o coração de seu receptáculo estava acelerado.
          Batia muito. Alto e fortemente. Os ouvidos de meu corpo já se acostumaram àquela batida, por isso não notei dor em sua mente. Mas para ouvidos comuns? Sempre soube que, caso eles se aproximassem indevidamente do meu peito apaixonado, ficariam todos surdos. Mas ela ouvia.

         Tum tum. Tum tum. Tum tum. 

         A cacofonia a incomodava, fazia atrito em sua mente. De que adianta lutar? Ele não pararia de bater mesmo. Não enquanto o corpo dela estivesse ali. Não enquanto aquele coraçãozinho dela fizesse o meu bater.
         Senti que sua surpresa não foi tudo. Senti seus olhos arderem. Minhas memórias, por estarem junto ao meu corpo, invadiram-lhe a consciência. Viu nosso primeiro beijo, só que do meu jeito. Ela viu seu próprio sorriso como quem o vê pela primeira vez todo dia. Ficou encantada como sempre fico! Como não ficaria? Aqueles dentes alvos e que viajavam longas distâncias, de uma bochecha ao meu coração. Ela sentiu aquela mordida que eu sinto quando a vejo. Viu que eu a amava.
          Estava em júbilos. Com uma paixão que nem era sua, senão por ela. Queria tocar o próprio corpo com minhas mãos, mas não teve coragem pela confusão do momento. Mais confusa ficou quando se deu conta de que não era um sonho. Olhou para si. Começou a sentir medo. A cortina se abriu para acalmá-la, mas, assim, o sol entrou forte mais uma vez e ela cedeu ao retorno de sua consciência de volta à casa. Mas, antes de sair, quase saindo, não querendo a saída... uma voz de meus lábios:
         - Não!

         E, ao acordar no corpo que era o meu, no raciocínio que era o meu, em frente a um amor que era o meu, para sempre saberei que aquela voz proferida por mim não era, curiosamente, a minha.
         - Eu te amo.
         - Agora eu sei.

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