Só
— A gente vai lá mesmo?
— Sim.
— Mas e o cachorro? Ele pode morder a gente.
— Ele não vai morder...
— Como você sabe?
— Eu não sei! Vem logo!
— Mas eu não quero ir, o muro é alto. Se ele vier correndo eu vou ser devorado!
— É culpa sua, menino! Ninguém mandou tentar dar uma de forte... Quer saber, dane-se. Você tá sozinho nessa merda. Vou esperar com os garotos.
— Não! Espera! Volta! Porra...
Malditos. São todos malditos. Desgraçados, infelizes, babacas. Mas eu vou lá. Vou pegar e vou roubar pra mim. Esses malditos não vão me ver de novo hoje. Nem em um mês, se depender de mim. E, além do mais, eu não preciso de ajuda. Consigo fazer isso sozinho. Sem aqueles sujos. Só eu e esse muro gigante.
Nossa, ele parece muito menor de longe. Parece liso, mas sei que se encostar de leve, eu me machuco. Parece seguro de subir, mas dá pra notar daqui que os vergalhões podem soltar só com o meu peso. Ah, quem se importa? Vou dar o jeito aqui. Vejamos, pé direito no portão, puxo o vergalhão e... Caraca, o muro tremeu! Nossa, como é bom ser eu agora. Sinto que essa parede bamba nem me aguenta. Eu e meus pesados quarenta quilos. Muro de merda. Amigos de merda. Todos são uma merda. E agora eu tenho que passar aqui e cair com esse monte de pedra em cima de mim. Justo. Deixa eu tirar os chinelos pra essa missão suicida. Onde vou deixar? Do lado dessa árvore parece bom. Espera, espera, espera. Oi? Tinha uma árvore aqui o tempo todo? Do ladinho desse muro? Prazer, Sra. Árvore, vou te subir.
Ufa, entrei - Sem nada para me ajudar a sair. Genial. Depois eu me viro. Preciso achar. Preciso me vingar dessa maldade dos malditos. Mas, poxa, vai ser difícil. Isso não é um terreno limpo igual falaram. É tão grande e tem uma casa enorme no meio. Parece que tem outro quintal lá pra trás. Deixo pra depois.
Bom, primeiro, acho que vou montar alguma coisa pra sair. Caixinhas ali, pedaços de madeira que deem pra subir. Nasci pra isso. Mentira, mas tá beleza. Agora quero fazer isso rápido; ouvi alguma coisa de dentro da casa. Vai ser maior merda se eu for visto. Nossa, maior merda mesmo. Por que eu entrei aqui? Droga, maldito chute. Vão me bater aqui. Me matar. Merda, nem falei nada pra ninguém. Minhas últimas palavras vão ser uns gritos idiotas de súplica. Porra!
Respira. Um, dois. Um, dois.
Está ficando tarde. Que ótimo! Vou acabar com essa bosta. Dando uma olhada no jardim - nada. No corredor do lado direito da casa - nada. Do lado esquerdo - nada. Lá trás - ops. Tem uma casinha de cachorro ali. E, putz, a casa é do meu tamanho.
A bola está em cima.
Coragem... Paciência... Vamos lá. Eu, ela e a fera. Dormindo? Tomara que sim. É escuro dentro da casa. Acho que vou dar a volta e... ela latiu.
Caralho.
Pulei na casa. Peguei a bola. O bicho mordeu meu pé. "Solta desgraça!". Correndo, agora, pro muro, por entre o corredor. O dono da casa parece bravo, ou preocupado; ele sai correndo atrás do cão que está atrás de mim. Ou está atrás de mim também. Fantástico! As caixas estão logo a frente. Vai dar! Vou conseguir!
Um salto. Dentro do muro. Sobre o muro. Fora do muro.
Silêncio. Na verdade tinha barulho, mas eu já não ouvia nada. Só dava pra sentir o chão tremer com as palmadas do dono no cão.
Não consigo pensar direito. Pego os chinelos. Pés mordidos, joelhos ralados, mãos cortadas. E, mesmo assim, não consigo nem pensar em uma ironia. Acho estranho que, num dos meus possíveis últimos momentos, eu, um menino, consigo rir com a desgraça dessa situação.
Agora eu vou voltar. Não vou roubar não. Vou mostrar para aqueles babacas que eu consigo. Vou correndo, o campo é logo ali na frente. Só virar essa esquina e...
Não tem ninguém. Já é de noite. Somos só eu e a bola. E, de novo, não consigo pensar.
— Malditos.
— Sim.
— Mas e o cachorro? Ele pode morder a gente.
— Ele não vai morder...
— Como você sabe?
— Eu não sei! Vem logo!
— Mas eu não quero ir, o muro é alto. Se ele vier correndo eu vou ser devorado!
— É culpa sua, menino! Ninguém mandou tentar dar uma de forte... Quer saber, dane-se. Você tá sozinho nessa merda. Vou esperar com os garotos.
— Não! Espera! Volta! Porra...
Malditos. São todos malditos. Desgraçados, infelizes, babacas. Mas eu vou lá. Vou pegar e vou roubar pra mim. Esses malditos não vão me ver de novo hoje. Nem em um mês, se depender de mim. E, além do mais, eu não preciso de ajuda. Consigo fazer isso sozinho. Sem aqueles sujos. Só eu e esse muro gigante.
Nossa, ele parece muito menor de longe. Parece liso, mas sei que se encostar de leve, eu me machuco. Parece seguro de subir, mas dá pra notar daqui que os vergalhões podem soltar só com o meu peso. Ah, quem se importa? Vou dar o jeito aqui. Vejamos, pé direito no portão, puxo o vergalhão e... Caraca, o muro tremeu! Nossa, como é bom ser eu agora. Sinto que essa parede bamba nem me aguenta. Eu e meus pesados quarenta quilos. Muro de merda. Amigos de merda. Todos são uma merda. E agora eu tenho que passar aqui e cair com esse monte de pedra em cima de mim. Justo. Deixa eu tirar os chinelos pra essa missão suicida. Onde vou deixar? Do lado dessa árvore parece bom. Espera, espera, espera. Oi? Tinha uma árvore aqui o tempo todo? Do ladinho desse muro? Prazer, Sra. Árvore, vou te subir.
Ufa, entrei - Sem nada para me ajudar a sair. Genial. Depois eu me viro. Preciso achar. Preciso me vingar dessa maldade dos malditos. Mas, poxa, vai ser difícil. Isso não é um terreno limpo igual falaram. É tão grande e tem uma casa enorme no meio. Parece que tem outro quintal lá pra trás. Deixo pra depois.
Bom, primeiro, acho que vou montar alguma coisa pra sair. Caixinhas ali, pedaços de madeira que deem pra subir. Nasci pra isso. Mentira, mas tá beleza. Agora quero fazer isso rápido; ouvi alguma coisa de dentro da casa. Vai ser maior merda se eu for visto. Nossa, maior merda mesmo. Por que eu entrei aqui? Droga, maldito chute. Vão me bater aqui. Me matar. Merda, nem falei nada pra ninguém. Minhas últimas palavras vão ser uns gritos idiotas de súplica. Porra!
Respira. Um, dois. Um, dois.
Está ficando tarde. Que ótimo! Vou acabar com essa bosta. Dando uma olhada no jardim - nada. No corredor do lado direito da casa - nada. Do lado esquerdo - nada. Lá trás - ops. Tem uma casinha de cachorro ali. E, putz, a casa é do meu tamanho.
A bola está em cima.
Coragem... Paciência... Vamos lá. Eu, ela e a fera. Dormindo? Tomara que sim. É escuro dentro da casa. Acho que vou dar a volta e... ela latiu.
Caralho.
Pulei na casa. Peguei a bola. O bicho mordeu meu pé. "Solta desgraça!". Correndo, agora, pro muro, por entre o corredor. O dono da casa parece bravo, ou preocupado; ele sai correndo atrás do cão que está atrás de mim. Ou está atrás de mim também. Fantástico! As caixas estão logo a frente. Vai dar! Vou conseguir!
Um salto. Dentro do muro. Sobre o muro. Fora do muro.
Silêncio. Na verdade tinha barulho, mas eu já não ouvia nada. Só dava pra sentir o chão tremer com as palmadas do dono no cão.
Não consigo pensar direito. Pego os chinelos. Pés mordidos, joelhos ralados, mãos cortadas. E, mesmo assim, não consigo nem pensar em uma ironia. Acho estranho que, num dos meus possíveis últimos momentos, eu, um menino, consigo rir com a desgraça dessa situação.
Agora eu vou voltar. Não vou roubar não. Vou mostrar para aqueles babacas que eu consigo. Vou correndo, o campo é logo ali na frente. Só virar essa esquina e...
Não tem ninguém. Já é de noite. Somos só eu e a bola. E, de novo, não consigo pensar.
— Malditos.
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