O preço do silêncio
A menina comia um bolo na casa de sua avó. Era natal e a família estava radiante em termos de moda; como era um dia quente do litoral nordestino, as roupas não eram tão... evidentes. Os pais e tios, claramente, preparados como turistas, visto que apenas a avó lá morava. Biquinis, bermudas e sungas para os pequenos; camisas claras e chapéus redondos aos já bêbados familiares. Ainda era cedo - onze da manhã - e, por isso, a preocupação para com a ceia não se fazia necessária. O que importava era a praia.
Garota de São Paulo, crescida em meio aos prédios ofuscantes e sobre o asfalto 'negropretosujoduro' das ruas; ela era pequenina e curiosa. Quem nunca? Ainda em seus cinco anos, a inocência transbordava-lhe nas ações, como era notado naquele natal. Firme crente no gordo Papai Noel, a jovem delirava-se em sorrisos mais verdadeiros que o de um homem defronte a seu amor. Esperava ansiosa o emocional preço de um presente sem preço com um obeso flutuador de carrosséis que, por alguma razão, curtia chaminés. Logicamente.
Não deixemos meu ceticismo obstruir a história da criança. Ela há de se surpreender devidamente, tanto quanto você, caso veja o que nossa pequena viu; caso sinta o que nossa ansiosa sentiu. Advirto também para que não crie esperanças desastrosas. Ninguém morre ou se machuca. O máximo que se nota são alguns gritos repetidos mais dois olhos curiosos seguidos e outros quatro surpresos.
Praia.
Toda a família foi, mas o foco reside na menina e nos pais. Ela passava pela fase de início das memórias; aquele momento onde o ser humano é novo demais para ter o que lembrar, mas é velho o suficiente para conseguir lembrar de um segundo atrás. Pergunto eu se o leitor lembra de sua primeira memória. Não? Pois bem, quem se importa? Esta garota curiosa, certamente, se importaria.
E ela começou a notar o mundo, um pouco antes da viagem. Lembra de sair do asfalto voando diretamente à toda aquela areia que cortava o espaço entre mar e verde. Começou, ali, notando os picolés, as conchas, as pedras, a água, os chapéus, os pés, as barracas... O que a garota mais notou, contudo, foi a amor de seus pais.
Boba, desentendida, vislumbrava tantos beijos e afagos, Para que aquilo tudo? Como se já não bastasse aquelas mãos suadas grudadas uma na outra por todo dia. Entendia, assim, devagarinho, com um quê de surpresa, o que era uma viva paixão.
E voltou para casa um pouco mais tarde, lá próximo das horas de se arrumar para a ceia.
Todos tomaram banho, todos puseram as roupas, todos sorriam - uns por amor, outros por presentes, e a velha avó, suspeito eu, sorria principalmente por estar viva. Coitada. - Isso era a vida daqueles que estavam com a garota. Ela também sorria. Nem lembrava mais do amor dos pais; só queria preencher o vazio da sua curiosidade com a imagem do abundante Papai Noel. Fazia planos de levantar-se de madrugada para vê-lo sozinha. Não queria o sabor dessa conquista para ninguém; era egoísta com seus sorrisos. E foi assim. Todos comeram, todos dormiram - menos já se sabe quem - e ela se levantou.
Não sabia onde ir, estava tudo escuro. Seu medo reinava; não o medo do perigo. Ela temia a quebra das suas expectativas. Ela temia que o redondo não viesse aquela noite.
Ouviu uma voz. Sorriu.
É claro que ele veio, como esquecer de mim?
Correu à sala na euforia de pegá-lo inesperadamente.
Lá estava ele, o Papai em cima do presente. Mas não era esse Noel. E não era esse presente. O segundo era sua mãe. E o primeiro era, de fato, seu pai. A garota não entendia.
Enquanto ficava em seu silêncio de análise, seus pais, atônitos, colocavam suas roupas e gaguejavam explicações para a pequena filha.
Quando os dois tentam aproximar-se para lançá-la alguma desculpa, ela simplesmente manda-lhes um triste olhar. A mãe vê uma lágrima e ouve um choro. O pai nada vê e nada ouve. A garota coloca os dedos na boca, como que pedindo silêncio, olha para a chaminé e, depois de passar da apreensão ao desgaste, volta para a cama.
Todos dormem. Todos acordam. Todos calam-se.
É bonito, como posso notar, o jeito que toda a curiosidade da menina, quando silenciada, pôde ser passada aos pais, ao ambiente e, evidentemente, ao meu caro leitor.
Garota de São Paulo, crescida em meio aos prédios ofuscantes e sobre o asfalto 'negropretosujoduro' das ruas; ela era pequenina e curiosa. Quem nunca? Ainda em seus cinco anos, a inocência transbordava-lhe nas ações, como era notado naquele natal. Firme crente no gordo Papai Noel, a jovem delirava-se em sorrisos mais verdadeiros que o de um homem defronte a seu amor. Esperava ansiosa o emocional preço de um presente sem preço com um obeso flutuador de carrosséis que, por alguma razão, curtia chaminés. Logicamente.
Não deixemos meu ceticismo obstruir a história da criança. Ela há de se surpreender devidamente, tanto quanto você, caso veja o que nossa pequena viu; caso sinta o que nossa ansiosa sentiu. Advirto também para que não crie esperanças desastrosas. Ninguém morre ou se machuca. O máximo que se nota são alguns gritos repetidos mais dois olhos curiosos seguidos e outros quatro surpresos.
Praia.
Toda a família foi, mas o foco reside na menina e nos pais. Ela passava pela fase de início das memórias; aquele momento onde o ser humano é novo demais para ter o que lembrar, mas é velho o suficiente para conseguir lembrar de um segundo atrás. Pergunto eu se o leitor lembra de sua primeira memória. Não? Pois bem, quem se importa? Esta garota curiosa, certamente, se importaria.
E ela começou a notar o mundo, um pouco antes da viagem. Lembra de sair do asfalto voando diretamente à toda aquela areia que cortava o espaço entre mar e verde. Começou, ali, notando os picolés, as conchas, as pedras, a água, os chapéus, os pés, as barracas... O que a garota mais notou, contudo, foi a amor de seus pais.
Boba, desentendida, vislumbrava tantos beijos e afagos, Para que aquilo tudo? Como se já não bastasse aquelas mãos suadas grudadas uma na outra por todo dia. Entendia, assim, devagarinho, com um quê de surpresa, o que era uma viva paixão.
E voltou para casa um pouco mais tarde, lá próximo das horas de se arrumar para a ceia.
Todos tomaram banho, todos puseram as roupas, todos sorriam - uns por amor, outros por presentes, e a velha avó, suspeito eu, sorria principalmente por estar viva. Coitada. - Isso era a vida daqueles que estavam com a garota. Ela também sorria. Nem lembrava mais do amor dos pais; só queria preencher o vazio da sua curiosidade com a imagem do abundante Papai Noel. Fazia planos de levantar-se de madrugada para vê-lo sozinha. Não queria o sabor dessa conquista para ninguém; era egoísta com seus sorrisos. E foi assim. Todos comeram, todos dormiram - menos já se sabe quem - e ela se levantou.
Não sabia onde ir, estava tudo escuro. Seu medo reinava; não o medo do perigo. Ela temia a quebra das suas expectativas. Ela temia que o redondo não viesse aquela noite.
Ouviu uma voz. Sorriu.
É claro que ele veio, como esquecer de mim?
Correu à sala na euforia de pegá-lo inesperadamente.
Lá estava ele, o Papai em cima do presente. Mas não era esse Noel. E não era esse presente. O segundo era sua mãe. E o primeiro era, de fato, seu pai. A garota não entendia.
Enquanto ficava em seu silêncio de análise, seus pais, atônitos, colocavam suas roupas e gaguejavam explicações para a pequena filha.
Quando os dois tentam aproximar-se para lançá-la alguma desculpa, ela simplesmente manda-lhes um triste olhar. A mãe vê uma lágrima e ouve um choro. O pai nada vê e nada ouve. A garota coloca os dedos na boca, como que pedindo silêncio, olha para a chaminé e, depois de passar da apreensão ao desgaste, volta para a cama.
Todos dormem. Todos acordam. Todos calam-se.
É bonito, como posso notar, o jeito que toda a curiosidade da menina, quando silenciada, pôde ser passada aos pais, ao ambiente e, evidentemente, ao meu caro leitor.
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