Perda

          O vento está muito forte aqui. O vento e a chuva. Os vestígios de sol que passam pelas nuvens do fim de tarde são os únicos elementos que me esquentam. Os únicos de todo o lugar, de todo o mundo. Esse, mesmo tão grande, parece-me tão pequeno daqui. Deste banco de madeira com a marca das minhas unhas, com esta terra no topo dos meus sapatos e com todo este oceano azul-escuro que, mesmo tão cheio d'água, está menos molhado que meus olhos; e, ainda tão cheio de vida, aparenta estar tão só como eu.
          Levanto-me, no topo deste penhasco.
            Por... - as palavras não vêm.
          Ainda de pé, abro os braços. Essa chuva que me empurra para a terra. Essas gotas de choro que vêm do céu para me salvar. Como isso pôde acontecer? Meus soluços não se manifestam. A garganta arde de prévios gemidos. Dói, é demais. E, nisso, o mar sacode; ele em pesadelos, igual a mim. Tão triste e tão barulhento; ele não quer ficar sozinho; ele quer minha companhia. Seus membros aguados alcançam meu rosto que, agora, concentra todas as fúrias do mar explosivo dentro de um sorriso quebrado. Um sorriso que cerra só um dos olhos, que infla só uma das bochechas, que traz só as boas das memórias; das memórias de um 'tchau' que eu não tive tempo de dar. Isso tudo enquanto o outro canto da face se amassa. Desfigura-se e amassa. Com o olho aberto e entristecido, cheio de sal do, também triste, mar, e com os dentes rasgando a outra das bochechas... Um grito:
          Por que!? Por que você não ficou mais um pouco? Não!
         Cai um raio. O céu chora por mim. Não.. Não ele. Você. Você que está nele. Ou quase nele. Subindo por entre as gotas. Tocando as gotas. Transformando-se nas gotas. E voltando para mim. Ausência. Tua de mim, minha de ti... Mas eu estou indo.
          Dei cinco passos, meus pés beiravam a morte. Pude olhar para o fundo; cheio de pedras e clamações pela vida. Fecho os olhos. Quanto medo, quanta dor. Mas vai acabar: no três.
       
          Um...

          ... Dois... Abro os olhos. O mar parou de se sacudir e de me chamar. A chuva parou de cair, e o vento, de me empurrar. Tudo se acalmou. O pôr do sol aparece por inteiro. Tudo está só esperando para ver. Para ver o que eu farei. E você aí no alto. Com seu brilhante olho amarelo, simplesmente sabendo que minha última palavra iria ser...
         
           Três.

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