Fiz um entrevista de emprego hoje. Indiferente sobre o que era; o que basta ser dito é que gostava da proposta. O propósito real é relatar um acontecimento de um tempo atrás que me traz alguma paz perante o nervosismo de futuro e entrevistas e coisas de adulto.
  Um dia eu fui encontrar uma crush do tinder na praia de Icaraí. Não lembro quem era, não lembro sequer se era um date mas acho que era; sempre fui adiantado nos roles desde as entrevistas até os dates. Cheguei adiantado e fiquei no banco do calçadão esperando a menina. Não lembro de como tava o dia ou o momento, mas a praia de Icaraí sempre foi um lugar onde sentei muito pra refletir, dá pra ver bastante o céu dali, uma noção de espaço agradabilíssima. Nesse dia tinha um pai e um filho conversando, eles ficaram conversando do meu lado por um tempo bom, foram embora na hora que a menina chegou, pode ter levado um tempo grande e nem sei garantir ao certo também, o ponto é que ouvi um momento da conversa que foi delicioso e memorável de se ouvir. Era o pai falando ao filho a seguinte frase:
  "Cara, eu tive que fazer tantas entrevistas... E você vai ter que fazer várias também... Nossa, você nem se dá conta de quantas tem que ser feitas, o lance é ir fazendo..."
  Li, essa semana, em textos de Nietzsche falando sobre o pesar da Esperança na vida do ser humano. Esperança é de fato um elemento assustador. É curioso como um sentimento moral ajuda a confortar dentro de um paradigma social inteiramente moral e hipócrita. Meu pai também sempre me diz palavras de hipócritos encorajamentos e preparações para o futuro. Sempre consenti, acho que faz parte, mas é irônico que o que eu de fato lembre seja o discurso do pai para o filho aleatório e não o discurso de meu pai. Acho intenso o modo como aquilo me marcou. Memórias seletivas. Tenho a consciência sempre tentando ver de fora do plano para não me exaltar perante as obrigações sociais impostas tal qual entrevistas de emprego. No entanto, por ser uma pessoa que cresceu nessa vigência, é natural supor meu remorso perante negações ou apreensões do dia dia rotineiro monetarista. Quero eu desenvolver mais esse lado de plenitude perante o sistema; tentar adentrar mais na plenitude! senão do sistema fora do plano, pelo menos no meu próprio conceito de sistema, de modo que este me baste. Acredito que consigo e isso o quero, ou o quero querer. Vejamos até onde meu verbalizar condiz com meu querer. Esse texto pode ser uma forma de adequação ao mundo ditado pelos homens e mulheres contemporâneos e pós clássicos e históricos. Quantos pais já disseram essas exatas palavras a seus filhos?! O meu, o daquele menino, o dos meus amigos! Todos falam a mesma coisa, é óbvio que todos os filhos tem sua plenitude e seus talentos, é saudável para nosso estado mental e avanço individual colocar os componentes de uma cultura - nós mesmos, as gerações futuras - um contra o outro? Em provas de admissão os olhares dos jovens presentes me objetificam como um obstáculo, um concorrente. Eu não sou e jamais quis ser um concorrente. A que ponto aceito eu essa obsolescência programada de mentes evoluintes e mal apreciadas? Por que o discurso do pai me traz conforto e discórdia, quando apenas - seguindo os traços de minha plenitude - deveria causar-me puramente discórdia, inconformação (!)?
  Suspeito a evolução de um espírito revolucionário que sei que não vou adentrar. Não é minha luta. Me adequar não é minha luta. Luto-a, todo dia, assim como individualmente toda alma que compõe a contemporaneidade. Mas não é uma luta que quero lutar. O mal da dor social - ansiedade, medo, depressão - talvez esse mal venha daí. Das constantes lutas que não são nossas lutas. Talvez a sanidade resulte do não se importar. Creio que apenas daí. As possibilidades de sanidade podem apenas resultar de dois componentes: conformidade e vitória. Vejo como inviabilizado conquistar, eu como indivíduo de vida curta num planeta já tão velho, a vitória perante o sistema. Talvez se eu começasse a lutar agora, meus filhos terão a sanidade, ou meus netos. Mas e minha vida? será um constante desgaste em prol de seres que ainda não existem? Ser altruísta até certo ponto! De esperança meus quereres transformaram-se em desesperança. Desesperança ou conformidade? A conformidade é o outro modo de atingir a sanidade. Ou, o que se entende por sanidade. Os africanos escravizados contra sua vontade nos séculos passados, os que se conformavam, eles atingiam a sanidade? evidente que não. Eles atingiam as lutas diárias. Sofriam como cães! Morriam como que indagando "por que dessa vida?". E a religião, as amizades, os pais e seus filhos, traziam a resposta para a sanidade com um quê de "não podemos desistir, há de ter mais entrevistas, há de ter mais lei áureas". E se uma possível resposta para a sanidade for o escape? Fugir de tudo, sem suposto destino - ainda que completamente guiado pelas mãos do sistema (que no fundo vai me oferecer todos os frutos que conseguirei adquirir) -. Dói imaginar a insuficiência do dia dia. Olhar no espelho e ver esperança parece algo tão obsoleto quanto ir à entrevistas de emprego e dates, e creio que de fato o é. Pouco importa (ou muito importa?) sobre isso tudo. Vontade de sair correndo, não por ansiedade, mas por raiva, talvez. Somos tão pequenos! Por que não nos edificar? Me sentir sozinho me fará mal até que ponto? transformar a solidão na minha força, encontrar prazer e realização na solidão!
  Solidão e prazer. Talvez a união destes componentes sejam de fato a minha luta.

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