Eu vou nas asas de um passarinho; Eu vou nos beijos de um beija-flor

Ao último dia de fevereiro de 2018.

 Eu matei um beija-flor uma vez. Peguei ele numa árvore, tava num ninho com os filhotes. Fui pegar pra mostrar pra um amigo meu, éramos novos, e nessa brincadeira acabei machucando o bichinho na minha mão e ele morreu. Eu vou nos beijos de um beija-flor. Ter morrido no último beijo te faz pensar, ainda que não faça sentido conscientizar o fato de que não se mostrou como um beijo, pois uma súplica. O silêncio me ensina muito, meu próprio, ainda que a comunicação me ensine bombas. Morro por dentro em entalados dramas que não sabem sair nas palavras, e se há bens que neutralizam esse abafamento poderia eu dizer que se apresentam na forma de silêncio e fotografia. A leitura me traz satisfação pela sensação de aproveitamento de tempo de vida. Meus conceitos de gosto e predileção parecem volver em torno do quanto eu aproveito meu tempo de vida. Em questão de aprendizado, no caso, e um pouco mais. Gosto também das sensações que as coisas dão, mas 2018 não pegou leve comigo em termos de sentir; acaba que sinto coisas porque sou humano, porém não as dou nome, porque sou medroso. E na minha pusilanimidade faço cócegas à própria alma.  Medo da necessidade das asas de um longe passarinho, do vício à busca pelo beijo de um morto beija flor. Fevereiro, me foste sempre tão meu, ainda que de todo o mundo e sua história. Que me ensinas sobre mim, além da minha conscientização do eu? Que me ensinas mais sobre a desvalorização da interlocução, sobre o desleixo das relações, a reciprocidade demolida em re, ciprocidade? Fevereiro, sei que não me tem resposta. Nunca me teve, não posso dizer que espero algo de você agora. Suponho que me faça sentido agradecer a um mês pela forma como ele na sua temporalidade me realiza. Tomo como alívio saber que minha carência de propósito verbal contrasta com minha evoluída força de vontade. Mas não minto que adoraria incrementar meu propósito às minhas sensações também, em soma à participação do propósito ao meu senso de planejamento. Me desenvolver a ponto de ressuscitar o beijo e dar valor a pássaros e pássaros,
 De forma que eu possa sentir que vou nas asas de um passarinho e nos beijos de um beija-flor.

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